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sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Tomando decisões — O caminho da literatura - VII

Então é isso, meu povo. Depois de trilhar os diferentes caminhos, chegou a hora de finalizar essa série de posts onde exponho meu processo de aplicação do livro "Tomando decisões segundo a vontade de Deus" do Pr. Heber Campos Jr. e tento responder a mim mesmo se devo migrar minha literatura para os EUA e parar de escrever no Brasil. Hoje vou falar da última etapa que o autor sugere, o caminho da espera.

A Bíblia é cheia de textos que nos falam do valor que existe em esperar no Senhor. Ao fazer isso, estamos reafirmando nossa dependência de Deus. Assim como qualquer outra coisa na vida, precisamos tomar decisões pautadas pela fé. Quando em dúvida, não é pecado nenhum esperar. Na verdade, quando em dúvida, talvez a melhor das soluções seja esperar e avaliar o que o Senhor tem para dizer.


Tenho muito claro na minha cabeça como vou aplicar o caminho da espera. Quero ter bastante paciência antes de me aventurar lá fora, pra que eu possa me preparar com sabedoria. A primeira coisa é ter paciência comigo mesmo.

Devido à leva de baixas que tive com a literatura no Brasil, estou desanimado e sei que se eu inventar de escrever outro livro do jeito que estou, não vai sair algo bom. Preciso entender que talvez eu precise esperar um pouco. Preciso encontrar uma época em que eu não vá ter interrupções de viagens de trabalho ou outras programações para que, por um mês, eu possa escrever todo dia.

Outra coisa, não posso me aventurar com qualquer coisa. Se for pra entrar num mercado tão concorrido como o norteamericano, eu preciso ter algo bom em mãos. Não basta ser mais ou menos. Preciso dar um salto de qualidade e realmente produzir algo que vá fazer alguma diferença, pra que eu tenha chance de entrar. Minhas histórias só terão chance de alcançar pessoas se, de fato, elas estiverem ao alcance dessas pessoas. 

Sem me adiantar muito, também preciso ter paciência com o processo. Se (se!) eu escrever bom, isso não significa que de imediato será publicado, tem toda uma outra saga a ser considerada depois disso. Enquanto para o escritor a escrita de um livro é uma etapa final de uma jornada, para uma editora a recepção de um manuscrito é a etapa inicial da jornada dela. É preciso sempre lembrar disso.

Tenho muito claro que se eu não tiver paciência, não vai dar certo. Estou me propondo a mergulhar num mundo diferente. Por mais que eu tenha alguma experiência com literatura no Brasil, preciso ter consciência e humildade para começar do zero.


Então é isso, minha gente. Estou oficialmente migrando minha literatura do Brasil para o exterior. Não pretendo mais escrever em português, vou apostar minhas fichas no inglês. Não há nada de pecaminoso ou errado nessa decisão, ela é apenas uma decisão. Preciso apenas ficar sempre atento às motivações do meu coração. 

Independente, quero fazer como o Pr Heber Campos Jr. ensina: "Não devemos procurar um trabalho que traga propósito à nossa vida, mas encontrar um propósito em qualquer trabalho." (p. 97-98). Quero escrever boas histórias, quero usar meus dons e talentos para servir ao Senhor e aos outros. Quero encher meu coração do anseio do salmista:
O meu coração transborda de belas palavras. Ao rei consagro o que compus; a minha língua é como a pena de um hábil escritor. (Sl. 45:1)
Obrigado por acompanhar esta série (acho que ninguém acompanhou kkkkk, mas é assim mesmo). De qualquer forma, não sei quando ou se vou ressuscitar o blog em algum momento de novo. Quem sabe se eu tiver algo de útil a dizer. 

Até lá, não esqueça:
Seja Deus vosso guia e vossa luz!  
S.D.G.

Tomando decisões — O caminho da literatura - VI

Bom, estamos aqui bem próximos do fim dessa série de posts onde tento responder: será que devo migrar minha literatura para o EUA e parar de escrever em português? Estou tentando responder essa pergunta usando o livro do Rev. Heber Campos Jr. "Tomando decisões segundo a vontade de Deus", que me tem sido de grande proveito. Hoje vamos explorar o caminho da suspeita.

Neste caminho, o autor nos convida a suspeitar do nosso próprio coração pecaminoso (Jr. 17:9). Por que eu quero mudar? Quais são minhas motivações internas? É importante estar sempre atento à idolatria do coração e não querer ser sábio aos próprios olhos, porque até coisas não pecaminosas rapidamente se tornam ídolos como segurança, proteção, controle de situações, prazer, poder, tranquilidade, aprovação, etc.  


Penso que, inadvertidamente, já comecei a trilhar esse caminho mesmo antes de começar a série proposta por Heber Campos Jr, quando por ocasião do post onde respondi algumas pergunas (esse aqui), mas vamos chover no molhado um pouco mais.

Não dá pra negar, e eu tenho praticamente certeza, que uma das grandes motivações para esta mudança é que quero reconhecimento. Preciso ser honesto comigo mesmo e ver que, como artista, muitas vezes querem que as pessoas olhem para as coisas que "eu" criei e me deem glórias por causa delas. Esta motivação, porém, vai ser sempre verdade para qualquer coisa que eu fizer, porque essa é a natureza do meu coração. É contra ela que preciso lutar em todas as áreas da minha vida.

Que posso fazer? Se parar pra pensar, provavelmente nenhuma das minhas ações é realmente motivada por algo bom, já que minha natureza luta contra mim. Mas, tenho em mim uma segunda natureza, e enquanto as duas lutam, posso rogar ao Senhor para me ajudar. Heber Campos Jr destaca que a oração é a ferramenta essencial do caminho do engano.

Preciso ser igual o salmista quando diz: "Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno." (Sl. 139:23-24). Este versículo é muito repetido, mas será que é aplicado? Eu quero mesmo que o Senhor sonde o meu coração? Estou preparado para o que Ele vai me ensinar? 

Talvez eu nunca esteja, mas eu sei que preciso. Então, sim, minha oração é sincera. Senhor, sonda e me ensina. Se mudar minha literatura para o exterior não for motivado pelo desejo de te servir, mas pela idolatria do meu coração, por favor, meu Pai, que dê tudo errado, e que o Senhor me ensine, para que eu seja verdadeiramente uma boa ferramenta nas tuas mãos.


Bom, creio que o caminho do engano é o mais forte pra mim. Por mais que eu pense racionalmente sobre a questão, é o lado espiritual que pesa tanto, porque em vários momentos eu sei que estou me enganando. 

Por outro lado, não posso deixar que isso me leve ao marasmo ou fatalismo. O segredo é que apesar de tudo isso, Deus ainda pode usar pecadores para a Sua glória. Eu só não posso perder isso de vista. Que o Senhor me capacite a orar todos os dias e pedir direção, para que eu cumpra a vontade de Deus para a minha vida. 

O próximo post provavelmente é o último da série.  
Até lá, seja Deus vosso guia e vossa luz.
S.D.G.

Tomando decisões — O caminho da literatura - V

Então aqui estamos. Depois de responder algumas perguntas de forma honesta (assim penso) e trilhar um pouco o caminho da reflexão, vou continuar na jornada de tomar uma decisão conforme a vontade de Deus e verificar se devo migrar minha literatura do Brasil para os EUA. Hoje quero trilhar o caminho do aconselhamento.

Segundo Heber Campos Jr., a marca de um cristão maduro é sua capacidade não só de aceitar conselhos como até mesmo de os buscar. A Bíblia está repleta de textos que nos incentivam a nos apoiar e ajudar mutuamente. É por isso que o caminho do aconselhamento necessariamente passa pela igreja. O sábio precisa ter humildade de buscar outros sábios para que possa entender melhor o que pensa.

Foi o que fiz. Comentei essa decisão com algumas pessoas, mostrei um dos posts dessa série, e colhi algumas impressões que gostaria de compartilhar aqui.


Todas as pessoas com quem falei encaram que, realmente, não há pecado nenhum em querer mudar a literatura para outra área, o lance mesmo são as motivações e como vou fazer isso. Um irmão inclusive mencionou que existe uma boa quantidade de autores que migram para a língua inglesa justamente por causa das vantagens que citei no post passado.

Este mesmo irmão, que é das Letras, trouxe um insight muito interessante: como eu enxergo meu papel como autor? Escrevo para ter reconhecimento? Por uma causa? Como expressão? Por curiosidade? Examinar a razão de escrever pode ser muito útil em desvendar as motivações do coração.

Uma outra pessoa me falou algo muito interessante. Quando leu meu post com as cinco perguntas (esse aqui), achou minhas observações bem honestas, mas fez uma ressalva: 
Edificar, ser útil, e glorificar a Deus não está relacionado à quantidade. Em que pese a quantidade seja um fator que pesou na sua decisão, creio que isso não pode ser usado para validar a decisão nesses quesitos. [...] Ter mais pessoas lendo seus livros não significa que isso será mais útil ou que redundará em mais glória a Deus. 

Pra mim, a análise aí é qualitativa, e essa análise já foi feita quando decidiu escrever e o que escrever. O que quero dizer é concordo que não há nada pecaminoso nessa escolha, e que escrever em inglês redundará em glória a Deus tanto quanto escrever em português.
Juntando esses dois comentários, percebo que me perdi no meu caminho de escritor. Quando lancei meu primeiro livro estava muito claro para mim que aquilo não era obra das minhas mãos; mas acho que no caminho eu fui pendendo cada vez mais para outro lado. Se é pra começar de novo em outra seara, que seja do jeito certo, entendendo que não é a quantidade, mas a qualidade e o porquê de escrever.

Quando comentei com meu pastor, ele também não viu problema nenhum com essa questão. Se a oportunidade apareceu e não há nada de pecaminoso, então que se aproveite a oportunidade. Quem sabe o que o Senhor tem reservado?


Salomão foi extremamente sábio ao dizer que: "Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança." (Pv. 11:14) e Heber Campos Jr. também ao ressaltar a importância do caminho do aconselhamento numa tomada de decisões saudável. 

Isso, na verdade, nada mais é do que a igreja. Fomos salvos para estarmos juntos. Um crente que quer estar separado de outros crentes não entendeu para quê foi salvo, é uma contradição. Jesus nos salvou para que estivéssemos juntos, justamente para momentos como esse. O conselho e apoio que recebo de meus irmãos e da liderança nada mais são do que um reflexo do Espírito de Cristo que atua no povo. Obrigado, Senhor, por fazer parte da igreja viva de Cristo.

Depois volto com mais reflexões e pensando como tomar decisões segundo a vontade de Deus.
Até lá, seja Deus vosso guia e vossa luz.
S.D.G.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Tomando decisões — O caminho da literatura - IV

Voltei. Voltei para continuar usando o caminho da reflexão ao meu favor e usar agora um pouco da mente racional (a pouca que tenho!) para investigar algumas possíveis vantagens e desvantagens, os prós e contras de migrar a literatura pros EUA. Vou tentar abordar em poucos tópicos da maneira mais prática que conseguir.


Vamos pensar primeiro em todos os contras.

1) Não escrever para meu próprio povo e idioma. Vejo isso com tristeza. Se eu pudesse, escreveria apenas drama urbano brasileiro, porém minha última tentativa nesse sentido foi um verdadeiro fiasco, então já não tenho mais ânimo. Pra mim é um contra não escrever para meu próprio país.

2) Não estar lá. Hoje em dia, ser autor não é mais só escrever, é também participar de eventos, é dar entrevistas, é mostrar sua cara e personalidade. Como vou fazer isso nos EUA se moro no Brasil? Lá tem muitos eventos para escritores e leitores dos quais não vou poder participar. A solução que penso para isso é encontrar um agente literário lá, que possa me inserir no radar das editoras; mas isso também vem com um contra, que é ter que lidar com o agente e seus honorários.

3) Competitividade. Embora os EUA tenham um público leitor bem maior que o brasileiro, isso também é verdade para a quantidade de escritores, especialmente porque você não precisa ser dos EUA para escrever em inglês. Você compete com gente da Europa, Austrália, Canadá e qualquer outra pessoa que não seja nativa mas que resolveu escrever nesse idioma (vide eu!). Isso significa que o que eu escrever precisa ser bom, de verdade, senão vou só desaparecer no mar de opções.

4) Literatura higienizada. Isso é algo que me preocupa na literatura cristã americana. Há um excesso de pudor em tudo. Parece que estamos sempre escrevendo para crianças com menos de 10 anos, que, realmente, não têm porque ser expostas a assuntos mais pesados. Mas um adulto de 40 anos ter receio de ler livro que contenha prostituição, violência, ou morte... cara, aí é demais. Mais um retrato da nossa sociedade peter-panizada.

Os outros "contras" que consigo pensar não estão relacionados com a literatura nos EUA, mas simplesmente com o que já é próprio do mercado literário: procurar editora, diagramação, revisão, capa, registro, distribuição, etc. Isso é algo que eu teria que enfrentar publicando no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo.

Tendo dito isto, vamos então aos prós.

1) Maior público leitor. Enquanto isso aumenta a competitividade, aumenta também minhas chances de encontrar um público que se identifique com o que escrevo. Querendo ou não, isso é valioso tanto do ponto de vista da satisfação pessoal (abençoar mais vidas) quanto da financeira (ter mais vendas). Além disso, formar uma base de público leitor é o item número 1 pra qualquer escritor que queira ter alguma chance de ser publicado por uma editora de verdade.

2) Não estar lá. Acho que me perdi um pouco no meu caminho de escritor porque o reconhecimento começou a me crescer aos olhos. Eu não estando lá isso fica mais distante. É um pouco o que aconteceu com minhas composições musicais, elas ficaram sempre distantes e eu nunca as pude contemplar tão bem. Hoje, penso que isso talvez seja bom e possa me ajudar a continuar a escrever só para abençoar e não necessariamente para ser visto.

3) Ganhar em dólar. Não posso negar que esse é um fator que influencia bastante, ainda mais na época em que escrevo que 1 dólar está valendo 6 reais. Ainda que minhas vendas sejam poucas, elas ainda têm mais chances de pagar os custos do livro. Além disso, me assusta muito, mas muito mesmo, como podem alguns livros tão ruins venderem tanto por lá. Falei com um amigo dos EUA sobre essa impressão que tenho do mercado editorial norteamericano e ele concordou, também não consegue entender. Então se até os ruins vendem, ora, Deus me ajudando a continuar a ser um escritor mediano tá bom demais.

#4) Fazer à distância. Como o mercado editorial nos EUA é muito mais voltado para ebooks do que livros físicos (conheço escritores americanos cujas vendas são 80% digital e 20% físico), consigo fazer tudo do Brasil, sem precisar lidar com o desgaste das vendas locais. Uma das coisas que foi pesarosa na minha decisão de encerrar a literatura no Brasil foi ver caixas e caixas de livros paradas, porque ninguém queria comprar.


Bom, olhando aqui esses prós e contras, ouso dizer que eles meio que se equilibram. Como qualquer decisão neutra, fazer ou não fazer tem os seus custos e benefícios. O que quero dizer é que, depois de colocar na ponta do lápis, a balança continua equilibrada, bastaria eu decidir. 

Porém, vou continuar aplicando a proposta de Heber Campos Jr antes de passar a régua, nem que seja só pra eu testar se o livro faz sentido mesmo ou não. Então vou reestudar o próximo caminho e apareço depois pra contar como continuo tentando tomar uma decisão segundo a vontade de Deus.

Seja Ele vosso guia e vossa luz.
S.D.G.

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

Tomando decisões — O caminho da literatura - III

Ok, vamos lá então para o que Heber Campos Jr. realmente propõe no seu livro. Para trilhar a vereda das decisões, ele sugere quatro caminhos: o da reflexão, o do aconselhamento, o da suspeita e o da espera. Pretendo seguir o livro à risca e trilhá-los um a um. 

O caminho da reflexão, segundo o autor, é o caminho pelo qual vamos usar a palavra de Deus e a nossa mente racional para ponderar sobre as decisões com base em princípios bíblicos. Ele entende que direção é muito mais uma questão de pensar do que de sentir. O autor nos convida a pesar os prós e os contras, a pensar em consequências de longo prazo, a decidir com base nos nossos dons e talentos. Tudo isso usando a Escritura como base para nos nortear. 

Bom, é isso que vou tentar fazer agora.


Heber Campos Jr. comentou que um dos grandes problemas hoje é que temos tanto acesso à leitura bíblica, mas pouco meditamos nela. Em tempos passados, o povo não tinha acesso às Escrituras, mas mesmo assim eram chamados a meditar nela. Levei isso em consideração e estou lendo Eclesiastes, buscando a direção por meio da sabedoria. Nessa pouca leitura, tenho visto algumas coisas. Não vou conseguir falar de todas, mas gostaria de destacar uma delas. 

Salomão constantemente fala da vaidade, da vida debaixo do sol e como ela é, em si, fútil, vazia, como vapor que logo desaparecer. Ele está certo, é claro. A vida debaixo do sol, ou seja, longe de Deus, é assim mesmo. E quando ele fala do trabalho, de como isso é correr atrás do vento, eu fiquei imaginando que minha literatura foi isso. Muito, mas muito trabalho mesmo, pra no final simplesmente não dar em nada. Teve um efeitozinho ali e acabou.

Assim seria minha perspectiva se eu não considerasse que o meu trabalho também foi acima do sol. Desde o começo minha literatura foi para servir aos outros, tenho isso muito claro na minha cabeça. Será que perdi isso ao longo do trajeto? É muito provável. Mas o ponto que quero apontar aqui é que o trabalho realizado por mim em algum momento acaba. É a natureza do próprio trabalho. 

Justamente porque Deus nos convida a viver e obedecer à sua vontade preceptiva, Deus está mais interessado no processo (em como eu trabalho) do que no resultado. Paulo plantou, Apolo regou. O trabalho deles foi de processo, não de resultado. Deus não precisa de mim para o resultado, ele só quer me abençoar me dando diferentes trabalhos. Logo, se minha literatura acabou no Brasil, não devo me vitimizar, mesmo tendo sido um trabalho acima do sol. O resultado não é meu.

Isso torna mais leve o meu caminhar. Se eu sigo com a perspectiva da vida acima do sol, eu não preciso me preocupar com o resultado, eu já sei onde vou chegar. O mais importante é eu olhar para a estrada e ter certeza de que a viagem vai ser bem feita. Quem diria que simplesmente ouvir e se render à vontade de Deus torna as coisas mais simples?


O caminho da reflexão não vai acabar aqui, ele vai seguir concomitante a todos os outros. Mas quis deixar esse insight aqui pra mostrar como esse caminho é valioso. Quantas vezes já não li Eclesiastes? Porém essa foi a primeira vez que pensei dessa forma, aplicando à minha realidade. É bênção do Senhor, que só posso ter por meio das Escrituras.

A próxima etapa seria uma abordagem bem prática e intelectual da questão. Até comecei a escrever aqui os prós e os contras, mas percebi que o post ia ficar grande demais, além de ser meio estranho mudar de tema tão abruptamente. 

Por enquanto, fica essa reflexão sobre como tenho encarado a literatura e como preciso ainda aprender mais caso eu de fato queira servir bem ao Senhor por meio desse dom. Que Deus me capacite, para que eu seja uma boa ferramenta de trabalho em suas mãos.

Seja Deus vosso guia e vossa luz.
S.D.G.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Tomando decisões — O caminho da literatura - II

Bom, esse não deve ser um post grande. Aqui devo começar a explorar o que realmente penso. A ideia de mudar a literatura pra outro país não vem de agora, é algo que já tenho estudado e de certa forma praticado nos últimos dois anos.

Também creio que não foi por acaso que conheci um escritor dos EUA que conversou comigo e disse que estaria disposto a investir e me ajudar com minha literatura lá. Ele, inclusive, acredita que meus livros venderiam e que eu teria boa chance no mercado editorial.

Tudo isso pra dizer que a ideia não surgiu do nada, mas vem aos poucos se construindo. De qualquer forma, vamos às perguntas propostas por Heber Campos Jr. 


#1) É lícito
Em outras palavras, é pecaminoso?

Creio que a resposta é não. Não é pecado a gente pensar numa mudança de carreiras (se é que posso chamar o que tenho de "carreira literária"). Porém, preciso ser honesto e o próprio Heber Campos Jr diz que embora muitas decisões em si sejam neutras, as motivações nem sempre são. Sim, é lícito. Mas por que eu quero mudar? Existe um aspecto que vejo ser problemático.

Por um lado, vejo que as portas no Brasil se fecharam e aos poucos meus livros fizeram tudo que podiam fazer, que um ciclo se encerrou, apesar de todos os esforços que fiz para que eles continuassem. Não funcionou, muito embora eu reconheça que eles tiveram uma boa caminhada, serviram a um bom propósito e, quero crer, foram bênçãos para outras pessoas.

O problema aqui é que o fato de os livros terem morrido me encheu de tristeza. Será que é por que acho que meu trabalho é tão bom que não merecia isso? Será que não é por que eu queria mais reconhecimento pelo que fiz? Será que é por que, no fundo, eu queria que os livros e as histórias servissem mais para a minha glória do que a de Deus?

Se eu for honesto, a resposta é sim. Se quero mudar a literatura pros EUA, meu foco precisa estar em fazer um bom trabalho, executar aquilo que Deus colocou nas minhas mãos, e não querer alcançar o resultado que eu penso ser o melhor. 

Logo, é lícito, mas eu preciso estar atento às motivações do meu coração. 


#2) É benéfico para mim? Convém, edifica?
Olha, eu creio que sim.

Quando escrevi meu primeiro livro, precisei mergulhar numa pesquisa intensa para garantir que o que eu fosse escrever tivesse consistência histórica e cultural. Isso me levou a conhecer uma infinidade de nuances das Escrituras que eu jamais teria conhecido se não fosse pela pesquisa. Aliás, não somente aprendi muito, como ainda tive a oportunidade de ensinar a outras na EBD da minha igreja.

Além disso, é bom fazer aquilo para o qual fomos criados. Eu sou, em essência, um artista. É muito, muito bom saber que Deus pode usar um pecador como eu para fazer algo belo. Várias vezes me sinto grato a Deus pelo dom da arte. Quanto mais beleza eu contemplo, mais eu vejo o Criador, a sua graça, a sua majestade. 

Se migrar minha literatura pra fora significa que posso continuar a experimentar isso, olha, espero que não esteja mentindo para mim mesmo, mas, para mim, sim, é benéfico, edifica e convém.


#3) É escravizante?
Pois é, seguido a linha da honestidade: sim, pode ser.

A começar pelos motivos que citei no ponto 1. Minhas motivações não são neutras e creio que todo artista luta contra isso. É preciso que eu não me deixe levar pelo orgulho e a soberba de achar que aquilo que eu criei é meu ou é obra das minhas mãos.

Não penso que a literatura me escravizaria no sentido de ser um trabalho que tomaria demais do meu tempo. Meu medo é outro. Especialmente se eu fizer sucesso por lá, o maior perigo é ficar escravizado pelo desejo de reconhecimento. Embora, parando pra pensar, isso seria verdade para qualquer arte ou qualquer área da minha vida. Qualquer uma delas pode ser escravizante. 

Este é um ponto no qual preciso ficar sempre de olho.


#4) É útil para outras pessoas?
Este talvez seja o ponto mais forte para se dizer que sim.

Embora o Brasil seja um país de dimensões continentais, o alcance dos livros não vai tão longe. Primeiro porque o Brasil, infelizmente, não é um país leitor. Segundo porque o português tem um alcance limitado se comparado a inglês e espanhol. Terceiro porque como o mercado editorial no Brasil é horrível de caro, o único jeito de conseguir publicar de forma barata é por meio de e-book. Mas deixa eu te contar, que se o Brasil já não lê... o mercado de e-books representa de 5-10% de todo o mercado literário.

Em outras palavras, creio que será muito mais útil escrever em inglês, porque o alcance desse material salta exponencialmente de uma hora para a outra. Não é que escrever em português não valha a pena e não seja útil para outras pessoas. É só que na conjuntura atual que se encontram os meus livros, o caminho que me parece mais proveitoso é migrar para o inglês. 

Se eu continuar a escrever entendendo que a função da minha escrita é abençoar outras vidas, então, sim, creio que será útil para outras pessoas.


#5) Glorifica ao Senhor?
Honestamente, se não tivesse considerado essa questão logo de cara, nem estaria escrevendo isso.

Creio que sim, essa migração de literatura é algo que glorifica ao Senhor por causa das razões que apresentei aqui. É claro que isso só será possível na medida em que eu mesmo estiver atento à vontade preceptiva de Deus para a minha vida. Quero mesmo glorificar ao Senhor? Então vou começar me submetendo à sua vontade decretiva. 


Bom, tentei de fato responder às perguntas da forma mais honesta que consegui. Depois vou enviar esse texto para algumas pessoas, justamente pra ter certeza de que não estou me enganando (caso esteja, vou comentar isso em outra ocasião).

Mas ainda não acabou, este foi só o primeiro passo nessa tomada de decisão. Heber Campos Jr. não usa essas perguntas como seu método para tomada de decisões, ele apenas as cita à guisa de introdução do assunto. E foi isso que fiz. Com essas perguntas já estou começando a responder e explorar algumas situações. Nos próximos quatro posts pretendo elucidar de vez a questão e, enfim, tomar uma decisão.

Seja Deus vosso guia e vossa luz.
S.D.G.

sábado, 4 de janeiro de 2025

Tomando decisões — O caminho da literatura - I

Nem acredito que estou voltando a escrever aqui depois de tanto tempo. Não sumi, nem me desviei, apenas surgiram outras prioridades. Ainda escrevo vários estudos, mas não tenho mais a gana de publicá-los aqui, ficam todos resumidos às aulas que ministro na classe de adolescentes na igreja.

Nos últimos anos meu foco se voltou muito para a literatura. Desde 2019/20, tenho lançado quase um livro por ano. Porém tenho visto que a literatura no Brasil, ou pelo menos na minha conjuntura pessoal, é um esforço que não traz retorno. Quase me pergunto se não é em vão. Então decidi optar por outro caminho: migrar minha literatura para os EUA, publicar tudo em inglês. Para mais detalhes, é possível ler um resumo aqui.

Mas será que essa é uma decisão que agrada ao Senhor? Será que realmente esse é um bom caminho para se trilhar? Essa série de publicações que farei são apenas eu respondendo minhas próprias dúvidas. Escrever me ajuda. Talvez te ajude também.


Toda essa série de posts teve origem com o livro "Tomando decisões segundo a vontade de Deus", do Pr. Heber Campos Jr. Alguns dos conceitos do livro já me eram familiares, mas a exposição dele abriu tantos horizontes que achei que valia a pena explorar com uma decisão que quero tomar agora.

O livro em si valeria uma série de posts no formato resenha, mostrando tudo que o autor tem para ensinar. Porém, como meu objetivo aqui é simplesmente aplicar o conhecimento que já adquiri, não vou expor cada detalhe. Por outro lado, penso que não dá pra começar a escrever direto sem pelo menos apontar algumas das bases nas quais me apoio. 

A premissa básica do livro é que a vontade de Deus para o crente é uma só e não há necessariamente uma vontade individual para cada um de nós. No mundo atual, parece que Deus tem uma vontade escondida para as nossas vidas e precisamos fazer de tudo para descobri-la. O autor rejeita essa noção. Nosso Deus é um Deus que se revela, não se esconde. Embora o autor utilize vários textos, diria que o texto base seria esse:
Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Pois aqueles que Deus de antemão conheceu ele também predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. (Rm. 8:28-30)
Deus tem um plano para a nossa vida? Sim, o plano é a santificação. Não é o curso que vamos escolher na faculdade, ou a profissão que vamos exercer, ou o que vamos fazer com nosso tempo livre. A vontade dele é que, durante tudo isso, nós sejamos cada vez mais conformes à imagem do Filho, até o dia da glorificação. Essa é a vontade de Deus revelada nas Escrituras. O problema, argumenta o autor, é que nós queremos descobrir os planos de Deus que não estão revelados a nós.

Para facilitar o entendimento, e argumentando que o próprio conceito de "vontade de Deus" é algo debatido e entendido de formas diferentes por autores diferentes, o autor traz dois conceitos para a vontade de Deus: a vontade preceptiva e a vontade decretiva.

A vontade preceptiva é aquela referente aos preceitos, ordenanças de Deus. O exemplo mais claro dessa vontade são os 10 Mandamentos, que trazem uma lista direta de qual é a vontade de Deus. Essa vontade nem sempre é seguida, porque eu e você falhamos muitas vezes. Além disso, essa vontade é claramente revelada nas Escrituras. Tudo que precisamos para realmente cumprir a palavra de Deus está na Bíblia, não precisamos de nenhuma outra revelação.

A vontade decretiva, por sua vez, refere-se a todos os decretos de Deus, tudo aquilo que Deus já predestinou pelo conselho da sua vontade, ou seja, tudo que já aconteceu ou vai acontecer. Essa vontade, em contraste com a preceptiva, nunca falha. Não há como não seguir essa vontade, se Deus o decretou, assim será. Outra diferença é que, ao contrário da anterior, essa vontade não é sempre revelada. Na verdade, geralmente temos vislumbres dessa vontade somente depois que já aconteceu.

Nossa função, argumenta o autor, é viver e buscar ardentemente cumprir a vontade preceptiva de Deus e que querer descobrir o que Deus não revelou é perigoso, se não pecaminoso. Devemos buscar a vontade revelada de Deus (preceptiva) e não a oculta (decretiva). O próprio Jesus nos alerta que não devemos nos preocupar com o dia de amanhã, que pertence ao Senhor (Mt. 6:25-34) O que podemos pedir a Deus é direção e sabedoria — que consiste justamente em fazer a vontade revelada de Deus.

O argumento do autor é que as decisões que tomamos que não têm caráter moral (ou seja, que não são uma questão de pecado) são decisões livres. Não é que Deus não está no comando de todas as coisas, Ele está, e a sua decisão está dentro da vontade decretada dEle. 

Porém, não temos por que buscar revelações especiais ou achar que, diante de várias opções não pecaminosas, apenas uma seja a certa. Deus quer que eu migre minha literatura para os EUA? Ou para Portugal? Ou fique no Brasil mesmo? Desde que minhas intenções não sejam pecaminosas, não tem resposta certa ou errada, isso não faz parte da vontade preceptiva de Deus. Basta eu decidir e o que eu decidir foi aquilo que Deus já havia decretado desde antes de fundação do mundo.


Evidente que o livro é bem mais profundo que isso, estou apenas resumindo aqui até para que eu mesmo possa pisar em bases firmes quando for escrever os próximos posts. Tendo a compreensão de que a decisão que vou tomar não tem como ser contra a vontade de Deus (não sendo pecaminosa), tenho segurança para saber que Deus é quem guia minha história. 

É um pouco mais complicado que isso, claro, mas é por isso que vou explorar mais o tema. O autor propõe quatro caminhos para tomar decisões segundo a vontade de Deus. Quero começar, porém, explorando cinco perguntas que ele traz a tona — e são essas as perguntas que vou tentar responder no próximo post:
  • É licito?
  • É benéfico para mim? Convém, edifica?
  • É escravizante?
  • É útil para outras pessoas?
  • Glorifica ao Senhor?
Pretendo trazer respostas brutalmente honestas, isso aqui será mais como um diário do que um estudo. Minha oração é que Deus possa me dar sabedoria para respondê-las com fidelidade e, assim, dar o primeiro passo numa boa tomada de decisão. Espero que isso aqui seja edificante para você também. Obrigado pela leitura e nos vemos no próximo!

Seja Deus vosso guia e vossa luz,
S.D.G.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Sobre devocional em casa

Eita, que precisou uma pandemia de fechar o mundo pra eu voltar a escrever nesse blog kkkkk. Brincadeiras à parte e só para fins de registro: meus amigos, estamos no meio de uma crise. Desde a Segunda Guerra Mundial que não passamos por algo desse calibre e numa escala tão grande. Veja só: a catástrofe chegou até Roraima! Daí você tira o alcance. 

Eu escrevo hoje este post motivado por alguns pedidos. Estamos num tempo de absoluta reclusão. O corona vírus veio para causar medo, derrubar muita gente e nos levar ao confinamento em nossas casas. É um inimigo invisível e mortal. 

Mas, isto não significa que a igreja (ou o cristão de maneira geral) deva se afastar de Cristo. Pelo contrário. São as tribulações e provações que geram em nós ainda maior perseverança. Porém este post não é sobre isso, vamos direto ao ponto: como e por que fazer devocionais em casa, especialmente numa época em que não se pode nem ir à igreja?


Eu não vou falar aqui sobre o que é uma devocional. Quero me ater mais ao prático. Mas quero destacar aqui uma coisa: não diga que você não tem tempo para fazer a devocional (ainda mais em tempos de quarentena como agora!). Nós sempre temos tempo. Sempre. Há tempo para tudo debaixo da terra. Há tempo. Você só precisa se organizar.

É um perigo muito grande ficar sem este tempo de intimidade com Deus. Entenda: um verdadeiro cristão que não tem este tempo de intimidade, deveria questionar-se seriamente sua conversão. Nós corremos um sério risco de ficarmos que nem o povo de Jeremias:
Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas. (Jr. 2:13)
Sem a devocional, ficamos para sempre presos numa superficialidade. Nós abandonamos o rio de águas vivas e cavamos poços que não trazem água. Isto acontece porque eles são superficiais, não conseguem reter água porque não foram fundo o suficiente para alcançá-la. Lembre-se: sempre há tempo para a devocional. 

Aliás, vou partir do pressuposto que você já sabe que tem que ficar longe do celular, televisão, música, conversar com outras pessoas (no caso deste post, estou falando de devocional individual, posso em outro momento falar de devocional em família), etc. Não tem jeito, um bom momento de devocional é feito à sós e em silêncio! Não tenha medo do silêncio. Sei que você teme os próprios pensamentos, mas Deus estará lá com você para te ajudar.

Agora vamos lá: como se faz uma devocional? A primeira coisa que é necessária para este momento, é a sua atitude. A nossa postura deve ser de entrega ao Senhor da Palavra. Temos um exemplo disso na Bíblia: 
Tinha ela uma irmã, chamada Maria, e esta quedava-se assentada aos pés do Senhor a ouvir-lhe os ensinamentos. (Lc. 10:39)
Naquele momento de entrega, Maria sabia que havia outras responsabilidades – e ela não as estava negligenciando. Mas, ela sabia muito bem que, naquele momento, não havia nada mais importante do que estar aos pés de Jesus. Esta atitude de entrega, de ter atenção, de realmente estar ali presente naquele momento, deve ser o que precede todo o resto.

Com isso, temos cinco passos bem simples para fazer uma devocional de qualidade. Cada um deles leva ao outro.

O primeiro passo é orar. Nesta oração, peça que Deus possa guiar este momento de devocional que você está prestes a iniciar. Peça perdão pelos seus pecados, para que você se apresente de maneira limpa. E ore para que Deus abra os seus olhos, para que você não apenas leia, mas possa realmente ter um momento de devocional com Deus. Ore como o salmista:
Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei. (Sl. 119:18)
O segundo passo é ler a Bíblia. Esta leitura deve ser sem interesses (vou comentar isso mais abaixo). Este é um momento de silêncio e humildade perante Deus. Entenda que você não está lendo um texto qualquer. Essa santa reverência diante da Palavra do próprio Deus não quer dizer que você vai virar um monge, é só que, naquele momento, você se põe aos pés do Senhor para ouvir a Sua Palavra.

O terceiro passo é duplo: meditação e memorização. Veja bem, novamente, por "meditação" não estou falando em fazer como os gurus indianos. O que você deve fazer é entrar no texto. O que está acontecendo? Quem disse o quê? Por que tal personagem tomou esta atitude? Quais foram as consequências delas? Se deixe imergir pela narrativa.

Quando não for uma narrativa, faça a mesma coisa. Se nas cartas de Paulo ele está dando uma exortação, absorva aquilo. Imagine Paulo escrevendo aquelas coisas e pense que aquilo foi para você. Sente diante do texto e deixe ele falar com você.

Aqui neste ponto, é muito importante a memorização. Isto é algo que tem ficado muito, muito a desejar. Entenda: memorizar não vai te tornar um super crente, tampouco vai te tornar melhor ou pior que os outros. Mas quando você memoriza, você está se capacitando para ser instrumento do Espírito Santo. Fale como Jeremias:
Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. (Lm. 3:21)
Mas como é que você vai trazer à memória algo que nunca nem colocou lá? Entende? Memorizar versículos serve como munição para momentos que você precise da Palavra. Não só para você, mas principalmente para outros que talvez precisem ouvir! Sabe aquele seu amigo que acabou te contando um problema? Sabe aquele colega de trabalho que comentou um problema? Em muitos destes casos, o Espírito Santo pode usar os versículos que você memorizou para abençoar outras vidas. A memorização não é uma atividade para crianças, mas um exercício contínuo para todo crente.

O quarto passo é fazer outra oração. Nesta oração você vai agradecer pelo momento que Deus te concedeu e pelo que você aprendeu. Veja bem, ter um momento de devocional na Palavra é um privilégio dos crentes! Esta é uma bênção que, infelizmente, não está disponível aos incrédulos. Quem não tem Deus, não consegue desfrutar da Palavra com plenitude. É evidente que o Espírito pode usar a Palavra para abençoar a vida daquela pessoa; mas, a não ser que ela tenha os olhos abertos, a devocional é uma bênção dos crentes.

O quinto passo é muito importante. Neste ponto talvez você ache que acabou. Você leu, orou, meditou. Pronto. "Cumpri minha tarefa". Mas tem ainda uma coisa muito importante que deve ser feita. E este aqui é o ponto mais negligenciado de todos: contemplação e silêncio. Quero citar alguns textos sobre isso:
Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra. (Sl. 46:10)
Porque assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: Em vos converterdes e em sossegardes, está a vossa salvação; na tranquilidade e na confiança, a vossa força, mas não o quisestes. (Is. 30:15)
Maria, porém, guardava todas estas palavras, meditando-as no coração. (Lc. 2:19)
Repetidas vezes a Palavra nos ensina sobre a importância de guardar as coisas no coração. De contemplar o que o Senhor nos revela. Depois que você tiver feito os passos anteriores, pense no que você leu. Aplique isto ao seu cotidiano. Se não houver aplicação direta, medite nos princípios por trás do texto, nas lições mais básicas. Eu afirmo sem medo de errar: é impossível você ler um texto bíblico e não encontrar nele aplicações. Até aquelas genealogias de Crônicas têm sua função, basta meditar.

Este momento de contemplação e silêncio deve ser feito sem pressa. Novamente: é uma questão de atitude. Você deve levar em média uns 30 minutos para fazer uma devocional de qualidade. Dá pra fazer com menos tempo, depende um pouco da quantidade de texto lido. Mas, não obstante, a coisa tem que ser feita com qualidade. Você não está cumprindo uma obrigação, você está desfrutando de um privilégio. Não queira comer tudo de uma vez, saboreie.

Termino novamente ressaltando a questão da atitude. Quando você estiver lendo não chegue diante da Palavra com uma percepção crítica ou analítica: "Hum, essa palavra no grego quer dizer o quê?"  "Ah! Essa doutrina deve ser uma subdivisão do pelagianismo. Será?". Entenda, todos estes questionamentos intelectuais e críticos são válidos: mas este não é o momento.

Você pode ter um momento de estudo bíblico mesmo, cheio dessas perguntas que são super importantes para a vida cristã. Mas no momento de devocional, você está ali para ser como Maria: entregar-se aos pés de Jesus. Deixe que Deus conduza os seus pensamentos, Ele tem o controle do texto. Procure ouvir o que Ele tem a dizer. E não aquilo que você quer ouvir.

Não busque no texto respostas rápidas para suas perguntas ou problemas. Não é assim que a devocional funciona. Deus realmente pode usar este momento para isto. Mas se você for com esta atitude, então você não quer se entregar à Palavra e ver o que Deus tem a dizer, você quer na verdade respostas para suas questões. Isto também é válido e você pode fazer isso, mas aí não é mais devocional.

Por causa disso, entenda: ler a Bíblia não é o mesmo que ouvir a Deus. Gente, eu tive um professor mega ateu na universidade que lia a Bíblia. Ah! E digo mais: ele citava alguns versículos do livro de Hebreus decorado, tá? Veja bem: muitos deles leem a Bíblia mas... com que atitude? A transformação que a Palavra traz está ligada à submissão que temos a ela. Não se esqueça disso.


Pois é, meus amigos. Espero que não demore outros dois anos pra eu postar alguma coisa por aqui. Pelo menos, por enquanto, tem algo aí de caráter mais prático. Lembre-se dos cinco passos que foram propostos aqui. Mas, por favor, tenha principalmente uma atitude de reverência e entrega diante do nosso Deus. Ele nunca quer o que é pior para você. Confie que, pela Sua Palavra, ele vai falar com você. Talvez não aquilo que você queira, mas algo que você precise ouvir.

Seja Deus vosso guia e vossa luz,
S.D.G.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Escatologia - À espera

E é isso aí. Chegamos ao fim de mais uma série de estudos, compartilhando ideias e ideais que valem a pena aprender. Vimos alguns princípios básicos da Escatologia, falamos da Agenda Escatológica de Jesus (que acabou provando ser um dos principais marcos de todos os nossos estudos!), a ideia do reino inaugurado e os últimos dias que ele inaugura (uma ideia estreitamente ligada à mensagem de destruição do templo de Jerusalém); sobre isso vimos também as diferentes correntes escatológicas na ideia do "milênio" de Apocalipse. 

Falamos do novo céu e nova terra, o tal do galardão que nos aguarda; falamos da linda mensagem contida na parábola das 10 virgens. Vimos temas polêmicos (e hollywoodyanos) como o anticristo, 666, a Grande Tribulação, a volta de Cristo, a ressurreição dos mortos e o juízo final. 

Em todos estes, e especialmente quando estudamos sobre missões e escatologia, vimos que o estudo do fim dos tempos não vem para satisfazer curiosidade, mas para nos ensinar a viver uma boa vida na terra enquanto aguardamos o fim. 

E o que fazer com tudo isso que aprendemos? Um dos grandes problemas da igreja hoje (e dos crentes em geral) é viver na terra sem olhar para as coisas do alto. Por isso frisamos tanto nos estudos a importância de estar preparado para o retorno de Jesus e viver uma vida com responsabilidade, que reflita o caráter de Cristo e assim sejamos encontrados firmes quando ele voltar.

Agora é viver à espera do retorno de Jesus.


Na agenda escatológica de Jesus, ele faz uso de cinco parábolas para deixar mais claro o contido na Agenda. São elas: a parábola da figueira (Mt. 24:32-42), a parábola do pai de família e o ladrão (Mt. 24:43-44), a parábola do bom e do mau servo (Mt. 24:43-44), a parábola das virgens (Mt. 25:1-13) e a parábola dos talentos (Mt. 25:14-30). Todas elas estão ligadas à ideia de preparação, inclusive uma delas nós já estudamos um pouco mais a fundo (a das virgens) e estão ligadas à ideia de espera com responsabilidade. 

Na parábola da figueira e do pai que não sabe a hora que o ladrão virá, Jesus quer alertar aos seus discípulos que não tenham uma espera curiosa, para só saber o que vai acontecer. O que Jesus quer é: "Aprendei, pois, a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, sabeis que está próximo o verão." (Mt. 24:32).

Nos tempos de Jesus, o figueira era a primeira planta que florescia e dava frutos, ela anunciava a estação de colheita que estava prestes a iniciar. Em vários momentos na Bíblia a figueira traz a ideia de mostrar que algo está prestes a acontecer. Quando a igreja não atenta para os sinais ao seu redor e não se prepara, torna-se rapidamente mundana. É isto que Paulo alerta quando escreve aos romanos
"E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus." (Rm. 12:2)
Às vezes parece que Jesus estava errado. Todo mundo lê isso e pensa: "Ora! Mas como é que eu não veria o fim do mundo se aproximar? Está tudo aí!". Porém a Bíblia mesmo prova que isso já aconteceu antes. É o que Jesus explica na parábola:
"Pois assim como foi nos dias de Noé, também será a vinda do Filho do Homem. Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, senão quando veio o dilúvio e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do Homem." (Mt. 24:25-37)
Que os ímpios não vejam até é plausível, mas a Igreja tem que estar preparada! Ela não pode se misturar ao mundo ao ponto de ser igual a ele, temos que ser diferentes. Nossa vida nessa terra é passageira e temos que lembrar qual é o nosso ponto de chegada: "Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus," (Ef. 2:19)

Na parábola do pai de família, Jesus é irônico em dizer que ninguém combina com o ladrão a hora que vai ser roubado. E justamente por causa disso, a gente vive olhando para os dois lados da rua, verificando se não tem ninguém rondando nossa casa, vivendo com responsabilidade e ficando atento aos sinais de algo que pode acontecer a qualquer momento. Que parábola perfeita!

Na parábola do servos fieis, Jesus está alertando para algo que ele já saberia que ia acontecer: na igreja primitiva, muitos achavam que era questão de semanas, no máximo, até Jesus voltar: "tendo em conta, antes de tudo, que, nos últimos dias, virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as próprias paixões e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda?" (II Pe 3:3-4a)

E quando ele não o fez, muitos abandonaram da fé, porque sua verdadeira esperança não estava em Cristo, mas nas coisas que eles queriam que acontecesse. O problema disso tudo estava em viver uma espera que não refletia fidelidade. Deus não tem que fazer as coisas no nosso tempo. Uma espera responsável não é uma espera egoísta, querendo atingir nossos próprios objetivos. A espera está muito mais ligada com a ideia de viver com fidelidade. Isto fica evidente na parábola dos servo bom e do mau. Leiamos:
"Quem é, pois, o servo fiel e prudente, a quem o senhor confiou os seus conservos para dar-lhes o sustento a seu tempo? Bem-aventurado aquele servo a quem seu senhor, quando vier, achar fazendo assim. Em verdade vos digo que lhe confiará todos os seus bens. 
Mas, se aquele servo, sendo mau, disser consigo mesmo: Meu senhor demora-se, e passar a espancar os seus companheiros e a comer e beber com ébrios, virá o senhor daquele servo em dia em que não o espera e em hora que não sabe e castigá-lo-á, lançando-lhe a sorte com os hipócritas; ali haverá choro e ranger de dentes." (Mt. 24:45-51)
O trabalho do servo bom é ser cuidadoso e fiel com o que lhe foi confiado, para que sempre haja sustento (é o que o texto nos informa). E note que o comportamento do servo bom é sua rotina, seu dia a dia. Ele não está um servo fiel, ele é um servo fiel. É isso que Jesus quer nos dizer: vivam a vida de forma justa e fiel em todo tempo.

O servo infiel, por sua vez, é um beberrão, que maltrata os outros, que vive uma vida de dissolução. Ele faz isso, a princípio, por causa da "demora"; porém o que é visível é que, na verdade, ele não estava comprometido com seu senhor. Ele queria realmente era satisfazer os próprios desejos egocêntricos: "Pois muitos andam entre nós, dos quais, repetidas vezes, eu vos dizia e, agora, vos digo, até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo." (Fp. 3:18)

Quando Jesus voltar, será revelado o que há de verdade no coração de todos, é o dia em que será separado o joio do trigo, de saber quem realmente buscou o reino do Senhor e quem estava buscando atender apenas seus próprios interesses. Para os crentes, isso é um processo de depuração, de revelar a nossa lealdade e limpar a terra do pecado.

E se estamos falando de limpeza do pecado, estamos falando de santidade: "Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor," (Hb. 12:14). Viver em santidade é exercitar aquilo que Deus nos ordenou todos os dias. Está muito ligado ao que vimos na parábola das virgens em ter o azeite preparado, por exemplo.

A relação com Deus é cultivada todos os dias, não é algo esporádico. Isso está estreitamente ligado com o que vimos na parábola das virgens, sobre as néscias: não podemos negociar o essencial. Aquilo que é vital, aquilo que é realmente necessário. Gente, Deus não está só nos grandes momentos da vida! Deus está em cada pequeno aspecto do nosso dia a dia! É assim que cultivamos uma relação com Deus: percebendo que ele está ao nosso lado todo tempo e buscando sua presença.

E quando passamos a ver isso, fica fácil traduzir nossa fé em atitudes do dia a dia. Fica mais fácil atingir nosso propósito, quando Jesus diz: "Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça;" (Jo. 15:16). Não estamos aqui a passeio, também temos trabalho a cumprir. Na parábola do servo bom e do mau, não apenas a atitude do servo, mas também o trabalho deveria ser cumprido, para que, quando o senhor retornasse, encontrasse tudo em bom estado.


Ao final de tantos estudos sobre escatologia, voltamos para onde começamos: não se deve estudar escatologia por mera curiosidade, é preciso realmente aprender. Um dos maiores problemas da igreja hoje é que se vive como se o mundo fosse nosso objetivo maior, esquece-se de para onde vamos, com quem viveremos, das marcas do fim dos tempos, das ideias e dos ideais que valem a pena ser estudados, defendidos, espalhados por todo o mundo.

Ter uma espera responsável é tudo aquilo que já vimos: conhecer o fim, saber dos seus sinais, permanecer firme mesmo em meio às provações, confiar plenamente em Jesus e saber que ele vem para nos buscar e nos dar uma vida totalmente diferente de tudo que imaginamos! Não precisamos ter medo do futuro ou das coisas que vão acontecer, pelo contrário, elas nos dão esperança!

Esperança da vinda de nosso Jesus e seu retorno triunfante; esperança do fim das tribulações, para viver num mundo totalmente livre do pecado; e, o melhor, esperança de viver eternamente na glória maravilhosa de Deus, desfrutando e glorificando para sempre a esse Deus eterno que nos deu muito mais do que poderíamos imaginar. Glórias pra sempre, Senhor! Glórias até o fim dos tempos e o começo da eternidade!
"Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus!" (Ap. 22:20)
S.D.G.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Escatologia - A ressurreição e o juízo final

Fala pessoal! Este, a princípio, é o penúltimo post que farei sobre este assunto tão rico que é escatologia, o estudo dos últimos tempos. Não afirmo, nem de perto, que esgotamos o assunto, mas que tivemos uma boa caminhada e passamos por alguns dos tópicos mais abordados, isso acho que dá pra afirmar. O de hoje é um desse tipo. 

Um pequeno parêntese reflexivo. Iniciei esse blog em 2014 sem absolutamente pretensão nenhuma. Nunca fiz questão de que os posts fossem longe, tampouco fiz marketing do blog. Mas estou muito contente em ver que este espaço tem sido instrumento para dialogar com outras pessoas a respeito da Palavra. São ideias e ideais que valem a pena compartilhar. Sempre pensei, e continuo, que se apenas uma pessoa lesse o que escrevi e fosse abençoada... pronto. O blog já serviu seu propósito. Jamais imaginei que ele pudesse ter alcance tão longo. Que Deus te abençoe, leitor(a), que essas palavras possam fortalecer seu coração. Fim do parêntese reflexivo. Vamos ao estudo.

"Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra. Depois, revestido este meu corpo da minha pele, em minha carne verei a Deus." (Jó 19:25-26)
"Na vida, só tenho certeza da morte". Já ouviram essa frase? Esta é uma triste verdade que ninguém  nessa terra pode negar. Apenas uma pessoa veio à terra e venceu a morte. Nosso salvador Jesus. Ele não evitou a morte, ele passou por ela. E venceu. 

Por isso, a morte para o cristão não é o fim. Não precisamos temer a morte, porque assim como Jesus ressuscitou e ele vive em nós, assim também a vida eterna está concedida a nós, por isso sabemos que a garantia da nossa vida está no fato de que Cristo vive, e podemos afirmar: "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?" (I Co. 15:55)

Mas não estamos aqui para falar da morte. Estamos aqui para lembrar da promessa que nos foi dada da ressurreição no dia final: "num momento, num abrir e fechar de olhos, ao ressoar da última trombeta. A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados." (I Co. 15:52)

Quando Lázaro morreu, sua irmã Marta estava inconsolável. Ele já estava doente, mandaram chamar Jesus, só que ele "demorou". Quando finalmente chegou na cidade de Lázaro, este já estava morto e sepultado há 4 dias. Marta aproximou-se de Jesus e disse que se ele estivesse ali, aquilo não teria acontecido, mas ao mesmo tempo declara que sabe que Jesus tem poder para salvá-lo. A resposta:
"Declarou-lhe Jesus: Teu irmão há de ressurgir. Eu sei, replicou Marta, que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia." (Jo. 11:23-24)
Vejam que interessante! Nós sabemos que Jesus estava prestes a realizar um milagre e ressuscitar Lázaro, mesmo ele já estando morto e enterrado; mas Marta não sabia. Ela achava que Jesus estava falando da ressurreição final. Opa! Mas isso não é coisa do Apocalipse? Então como é que ela já sabia? Hum! 

Então é porque, como já vimos, a Escatologia não se resume ao Apocalipse, tampouco ao Novo Testamento. Em Isaías já temos essa promessa: "Os vossos mortos e também o meu cadáver viverão e ressuscitarão; despertai e exultai, os que habitais no pó, porque o teu orvalho, ó Deus, será como o orvalho de vida, e a terra dará à luz os seus mortos." (Is. 26:19)

É por isso que quando Jesus afirma, no Sermão do Monte, que: "Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia." (Jo. 6:44), sua divindade ficava tão evidente. Porque os judeus sabiam que aquilo era uma promessa dada pelo próprio Deus, já no Antigo Testamento. E Jesus vem para reforçar essa promessa e dar garantia de seu cumprimento.

Já vimos que não haverá dois "retornos" de Cristo (vimos nesse post), por isso, também não há que se falar em duas ressurreições. Jesus é bem claro ao afirmar que: "Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão:" (Jo. 5:28). Novamente, o texto bíblico fala de uma ressurreição e não "ressurreições", no plural: "tendo esperança em Deus, como também estes a têm, de que haverá ressurreição, tanto de justos como de injustos. (At. 24:15)

E aqui já começa a intersecção com o tema do juízo final. Não obstante haver já o senso comum de que há céu e inferno e são destinos diferentes, para pessoas diferentes, Paulo deixa bem claro qual é o contexto disso (o texto é meio longo, mas vale a pena):
"e a vós outros, que sois atribulados, alívio juntamente conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de fogo, tomando vingança contra os que não conhecem a Deus e contra os que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus. Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram, naquele dia (porquanto foi crido entre vós o nosso testemunho)." (II Ts. 1:7-10)
Já falamos no último post que não temos que temer este momento, visto que Jesus já pagou o preço pelos nossos pecados. O que deve ser chamado à atenção aqui é que haverá uma única ressurreição final que incluirá a todos: justos e injustos. E neste momento é que virá o juízo.

Neste juízo, que não temos explicitação na Bíblia de como se dará, há alguns pontos que são certos. O primeiro é que todos comparecerão diante dele: "Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus." (Rm. 14:10)

Os salvos não terão seu destino decidido neste julgamento. Isso porque o seu destino já foi definido: "Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus." (Rm. 8:1). Note no texto que Paulo escreve aos Romanos e inicia dizendo que agora, já não há condenação. Ele não diz que no futuro. Ele está dando a garantia de que desde já somos salvos e justificados por Cristo e seu sacrifício. 

Os crentes, portanto, serão julgados sim, mas pelos seus atos, o que está diretamente ligado ao seu galardão (o que também já estudamos aqui): "Ora, o que planta e o que rega são um; e cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho." (I Co. 3:8)

O ato do juízo final, portanto, é regozijo para alguns e tristeza para outros. O profeta Daniel já falava desse dia no Antigo Testamento: "Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e horror eterno." (Dn. 12:2). Quando isto acontecer e Deus julgar as pessoas: "Então, vereis outra vez a diferença entre o justo e o perverso, entre o que serve a Deus e o que não o serve." (Ml. 3:18).

Antes que dúvidas e revoltas surjam contra esse julgamento, eu já vou deixando claro: Isso é justo! Total e puramente justo. Não há ato de maldade de Deus em julgar e condenar pessoas ao inferno. O que seria injusto é pecadores como nós recebermos a graça de termos uma vida eterna ao lado do nosso pai celeste. Isso sim seria injusto. É tão somente pela graça (um presente não merecido!) que podemos desfrutar desse presente e graças a Deus por isso! 

E, antes de discordarem de mim, lembrem-se que já estudamos isso antes. Nos posts de Apologética há vários em que isso é demonstrado, vou deixar o link de dois, é só clicar e ler. "Deus e as injustiças" e "Deus, fatalidades e tragédias". Os posts sobre a glória de Deus, em certa medida, ajudam a compreender também esse aspecto com certa profundidade -- especialmente para entender porque o inferno é horrível: é justamente porque lá não está presente a glória de Deus.

Voltando. Há um contraste, então, no momento da ressurreição: os salvos para a vida, os ímpios para a condenação. Na nova vida que é concedida ao cristão, também lhe será concedido um corpo glorificado. A ressurreição implica em viver eternamente diante de Deus e, como sabemos, Deus não pode ter comunhão com o pecado, simplesmente não dá. Portanto, para que nós possamos desfrutar da Sua presença com plenitude, Ele nos dá um novo corpo. Limpo, santo, livre do pecado.
"E, assim como trouxemos a imagem do que é terreno, devemos trazer também a imagem do celestial." (I Co. 15:49) 
"Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da sua glória, segundo a eficácia do poder que ele tem de até subordinar a si todas as coisas." (Fp. 3:20-21)
"Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é." (I Jo. 3:2b) 
"E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram." (Ap. 21:4)
Meu Deus! Quanta bênção que eu não mereço! Olha o contraste que há desse corpo glorificado com o meu atual. Quando eu nasci, lá em 1991, eu já comecei a morrer. Este corpo que agora tenho é fadado à morte, isto é algo do qual não escaparei. Por outro lado, com o corpo glorificado, eu vou nascer para viver. 

E justamente porque eu não vou mais morrer, então não tem mais necessidade de eu me reproduzir. É nesse contexto que deve ser lido e entendido o texto de Lucas quando Jesus diz: "mas os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos não casam, nem se dão em casamento."

Nós não seremos anjos (já vimos isso extensivamente aqui, aqui e aqui), porque fomos criados homem e mulher (Gn. 1:27). Tampouco significa que não haverá amor. O que haverá é uma forma tão superior de amor, que o casamento já não fará mais sentido. O símbolo da união entre Cristo e a Igreja não será mais necessário, porque nós estaremos vivendo o fato e não o símbolo dele; além disso, sendo co-herdeiros com Cristo e filhos de Deus, a nossa família estará completa e será plena. Precisamos estudar a Bíblia à luz da própria Bíblia!

O mais magnífico da promessa do corpo glorificado é que a Bíblia fala que seremos semelhantes a Cristo! (Fp. 3:20-21, conforme lemos acima). Isto significa um corpo livre do pecado e tudo que isso implica: nossas emoções, racionalidade, desejos, comportamentos, nosso próprio modo de ser será totalmente diferente, porque finalmente estaremos limpos, livres do pecado, e plenamente capazes de amar, obedecer, e glorificar ao Senhor para todo o sempre! (O que, aliás, é a melhor coisa que poderia nos acontecer! Vide o que já estudamos aqui e aqui)


Há coisas na Bíblia que não claras, porque Deus assim escolheu não revelar. Mas há outras que podemos aprender. Aprendemos que a nossa história não é cíclica ou aleatória, ela tem um propósito, um fim. Vimos que a ressurreição será um evento único, tanto para crentes quanto ímpios. Neste momento também haverá juízo, o qual pode ser tanto para vida quanto para morte, a depender da relação pessoal com Cristo.

Disso depreendemos que o juízo é inevitável e virá para todos. Os salvos não estão excluídos de responsabilidade nesse dia, pois ainda terão que prestar contas das suas obras. Isto implica em uma vida moral e espiritualmente saudável, que reflita esse momento na vida do crente. O dia final é o dia que redime a história, onde haverá perfeita justiça sobre os homens. 

Por fim, temos a certeza de que tudo isso ocorrerá porque Cristo já cumpriu parte disso e já anunciou que o mesmo acontecerá com a gente. E podemos ver isso na Bíblia! Lembram daquele episódio de Lázaro e o diálogo de Jesus com Marta? Pois é. Nós vimos só um trecho do diálogo. Vocês sabem o que Jesus responde para Marta, quando ela achou que a ressurreição à qual ele se referia era a ressurreição final? Foi isso: 
"Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá" (Jo. 11:25)
Seja esse Jesus vosso guia e vossa luz.
S.D.G.