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quarta-feira, 7 de março de 2018

Escatologia - O tal do milênio: as diferentes correntes escatológicas

Fala pessoal! Estamos aí com mais um post sobre nosso estudo de Escatologia, o estudo do "fim dos tempos". Já abordamos de maneira geral o porquê de estudar escatologia, já falamos da agenda escatológica de Jesus (em Mt. 24) e da inauguração do seu reino, que está intimamente ligado com a ideia de "últimos dias".

Como já falei, estes estudos das aulas que dou para os adolescentes da II Igreja Presbiteriana de Boa Vista. E, como é natural de todas as aulas, surgem muitas perguntas e dúvidas dos alunos. Ainda, surgem questões do tipo "eu tenho um amigo que disse que...", e aí aparecem outras doutrinas além da nossa e por aí vai.

Por causa disso, depois de exposta a ideia do Reino de Cristo na terra e a ideia dos últimos dias, resolvi fazer uma aula de honestidade intelectual com os alunos, falar pra eles que isso que estamos estudando parte de uma perspectiva amilenista e que há outras perspectivas sobre este mesmo tema. 

É preciso que eles compreendam que existem essas outras perspectivas, para não serem tomados de surpresa. A princípio, destaquei que a nossa doutrina se pauta pelo amilenismo e que devemos respeitar a posição teológica de outras denominações, ainda que entendamos que a nossa é a mais biblicamente embasada. 

A seguir vamos apresentar de maneira geral cada uma delas e vamos fazer um quadro resumido ao fim. O que cabe dizer que as crenças que todas abordam, e veremos individualmente, são: o milênio, a segunda vinda de Cristo, o Anticristo, a Grande Tribulação, a Ressurreição, o Julgamento e a relação entre Igreja e Israel.


O texto que embasa toda essa discussão, a princípio, é: "Então, vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente. Ele segurou o dragão, a antiga serpente, que é o diabo, Satanás, e o prendeu por mil anos; lançou-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não mais enganasse as nações até se completarem mil anos. Depois disto, é necessário que ele seja solto pouco tempo." (Ap. 20:1-3).

As interpretações deste texto, têm embutidas em si todas aquelas outras categorias citadas acima, como parte de diferentes pressupostos. Neste post vou meramente listar cada um destes pressupostos das diferentes correntes, visto que este estudo não fazia parte do roteiro inicial das aulas propostas aos alunos.

Por primeiro, para os amilenistas, o milênio a que se refere o texto de Apocalipse não é literal. Trata-se de um período longo, mas que já começou quando Cristo cumpriu a sua missão na primeira vinda. Isto é o ponto que temos exaustivamente estudado nos posts anteriores, com diversos textos que embasam essas afirmativas.

Sua segunda vinda ocorrerá portanto em um único evento, visível a todos, a mesma ocasião em que ocorrerá o arrebatamento, que também será único. Esta segunda vinda, ocorrerá apenas após a Grande Tribulação. Na mesma ocasião, haverá a ressurreição de salvos e ímpios, os primeiros para a glorificação, e os segundos para a condenação, num único julgamento. Por isso, para os amilenistas, não há diferenciação entre Igreja e Israel, entende-se que Deus tem um único povo e que a Igreja é o verdadeiro Israel.

Quanto à questão do Anticristo, os amilenistas argumentam que houve diversos Anticristos durante a história. Já falei isso em posts anteriores: o "anti"-Cristo é aquele que é "contra"-Cristo, é literalmente o que a palavra significa. Haverá post específico sobre essa temática, mas essa explicação simples serve para entender porque há o argumento de que o Papa é um anticristo: pelo simples fato de que ele, ao se designar mediador entre Deus e homens, tenta assumir o lugar de Cristo.

Assim, para os amilenistas, a posição do Anticristo é constantemente ocupada por diferentes perseguidores e falsos profetas da igreja. Escatologicamente falando, a figura do Anticristo seria exacerbada durante a Grande Tribulação, onde uma figura maior surgirá para ocupar essa posição de maneira mais evidente.

Muito interessante notar que, para os amilenistas, o "Anticristo" não precisa ser necessariamente uma "pessoa": sistemas de governo, ideologias, filosofias ou construções sociais que se coloquem contra o Evangelho de maneira a impedir seu avanço ou tomar seu lugar, comportam-se também ocupando a posição de "Anticristo."

Os posmilenistas têm posições muito similares aos amilenistas, alterando apenas em alguns pontos. A começar, claro, pelo milênio: para os pós, o milênio começa conforme ocorre a expansão do Evangelho e as pessoas forem convertidas. Para eles, há um processo paulatino em que a era presente aos poucos se funde com o milênio de acordo com esse aumento do Evangelho.

Por conta disso, a Grande Tribulação, em seu ponto de vista, já é experimentada hoje. Não obstante, o entendimento sobre a segunda vinda de Jesus, o arrebatamento, a ressurreição dos mortos e seu julgamento são idênticos aos do amilenistas, razão pela qual também seu entendimento sobre Israel e a Igreja são similares. Até mesmo a ideia do Anticristo é similar, onde eles argumentam que qualquer pessoa que seja contra o cristianismo e o persiga é um Anticristo.

As maiores diferenciações começam quando passamos a ver o ponto de vista dos premilenistas históricos. Para eles, em começo, o milênio será literal, porém ele só ocorrerá após a segunda vinda de Cristo, ainda que reconheçam o Reino dele hoje já presente na terra. Não obstante, permanece com eles também o entendimento de que a segunda vinda será um evento único e visível, bem como o arrebatamento.

Argumentam porém, que, ainda que a Igreja estará presente na Grande Tribulação, o Anticristo será uma pessoa inimiga da igreja que se levantará durante este período. Além disso, visto que o milênio para eles ocorre após a segunda vinda, há também dois julgamentos e duas ressurreições: a primeira ocorre justamente na segunda vinda, quando os salvos ressuscitam e são julgados; o segundo ocorre no final do milênio, que é a vez dos ímpios ressuscitarem e serem julgados.

Nota-se aqui uma maior diferenciação entre aspectos principais de questões da forma apresentada pelos amilenistas e posmilenistas. Também, ainda que os premilenistas argumentem que a Igreja é o Israel espiritual, em seu ponto de vista há diferenciações entre Igreja e Israel, sendo que este último será tratado separadamente por Deus em algumas questões escatológicas.

Por fim, o premilenismo dispensacionalista é o mais hollywoodiano de todos: é baseado neste que alguns filmes, livros e séries são produzidos. Aqui há drásticas diferenças com os modelos anteriores. Sua maior aproximação está com o premilenismo histórico, pois também argumenta que o milênio é literal e ocorrerá após a Segunda Vinda. Mas as semelhanças param por aí.

Por exemplo, para eles, a segunda vinda e o arrebatamento ocorrerão em duas fases: 1) arrebatamento secreto da Igreja. Depois disso passam-se 07 anos de tribulação aqui na terra e aí vem 2) a segunda vinda. Essa diferenciação e a ideia do arrebatamento secreto são chaves na seu entendimento dos outros pontos escatológicos.

Por exemplo, já que haveria esse arrebatamento secreto, a Igreja então não passaria pela Grande Tribulação, pois seria arrebatada antes. Neste período, o Anticristo seria também uma pessoa inimiga declarada da Igreja, mas que nada poderia fazer com os que foram arrebatados. Esse entendimento gera 03 momentos distintos para o julgamento e a ressurreição:

1) O primeiro julgamento seria o dos salvos no arrebatamento secreto, bem como a sua ressurreição. 2) O segundo já seria a ressurreição dos judeus (após aqueles 07 anos de tribulação), nesta mesma ocasião haveria o julgamento destes judeus e alguns gentios. E 3) a ressurreição dos ímpios após o milênio, ocasião de seu julgamento também.

Nesta corrente escatológica vemos uma evidente separação entre Israel e Igreja, que são vistos como dois povos distintos. Israel tem um tratamento diferenciado tanto na questão do arrebatamento quanto do julgamento, sendo vistos de maneira bem distinta das outras correntes escatológicas.


Existem importantes autores que aderem a essas diferentes correntes escatológicas. Cada uma delas propõe diferentes entendimentos para a ação da Igreja no presente, especialmente em relação à evangelização e envolvimento da Igreja em questões sociais.

O amilenismo, conforme já estamos estudando e vamos continuar a estudar, a princípio, é a corrente que melhor oferece base condizente com a exegese bíblica, sendo mais condizente com as posições elencadas pelos apóstolos e Jesus (e já vimos isso em posts anteriores); coaduna com esse argumento autores como Elias Medeiros, Berckhof, Allis, e outros. Por outro lado, a posição mais fraca é a premilenista, que parte de uma grade cronológica pré-estabelecida e vai às Escrituras apenas fazer "recortes" para encaixar em seus pressupostos já dados.

Não obstante, cabe a nós respeitar as diferentes posições dos colegas. É importante salientar que mesmo dentro de uma corrente escatológica, há posições divergentes: não é monolítico o entendimento de todos os amilenistas ou posmilenistas, por exemplo. Se nos perguntarem, temos que estar preparados para argumentar biblicamente a respeito da nossa, por isso vamos continuar estudando-a e aprendendo um pouco mais sobre Escatologia.

Sejamos servos fieis, porque, independente da corrente escatológica que se prove correta no futuro, há pontos que são comuns a todos e que são certos, pois estão claramente revelados na Palavra de Deus: haverá uma Grande Tribulação, todos nós passaremos pela Ressurreição e o Julgamento, e, com toda a certeza, haverá a SEGUNDA VINDA de nosso Senhor Jesus.

Maranata! Vem, Senhor Jesus!
Vem e encontre aqui uma Igreja firme e fiel, que te segue em meio a qualquer tribulação!
Permita-me ser um dentre eles.
Permita que os leitores também sejam. Por favor, sê com todos eles e capacita-os, seja seu Guia e sua luz.

S.D.G.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Escatologia - Os últimos dias

Olá, meus caros! Nestes últimos dias temos estudado sobre Escatologia, ou o estudo do "fim dos tempos". Já passamos por alguns tópicos importantes, como a principal razão de estudar escatologia, a agenda escatológica de Jesus e a noção de "reino", previsto no Antigo Testamento e inaugurado por Cristo. Hoje vamos dar continuidade falando do conceito de "últimos dias". 

Vale lembrar novamente aqui que a base destes estudos aqui é a revista Palavra Viva que tenho usado para dar aulas aos adolescentes da II Igreja Presbiteriana de Boa Vista. A ressalva é importante para lembrar do trabalho dos editores da revista, que forneceram esse conteúdo de primeira para essa garotada que, cada vez mais, precisa conhecer a boa doutrina cristã.


O conceito de "últimos dias" está embebido pela tensão entre o "já" e o "ainda não". O crente do Novo Testamento (N.T.) sabia que a promessa escatológica do Antigo Testamento (A.T.) fora cumprida (é o que vimos no último post sobre o "reino"). Porém, o crente do N.T. sabia que ainda existiam outras promessas, ainda não cumpridas. 

Nós percebemos esta tensão no presente. O exemplo mais fácil para explicar aos adolescentes é: você já fez a prova, mas está esperando o resultado dela. É uma tensão entre o "já" (a realização da prova) e o "ainda não" (não sabe se passou ou não, porque não saiu o resultado). Na vida cristã isso é representando, só pra dar um exemplo, pelo contraste entre a comunhão que temos com os nossos irmãos aqui e a comunhão dos santos que desfrutaremos na eternidade: nós já temos a comunhão, mas ela ainda não é plena.

Para entender bem o que são os "últimos dias", temos que entender o ministério de Jesus. Como já vimos, ele é a grande promessa do A.T. sendo cumprida. Mas, ainda no A.T., já havia indícios de falsos messias. O que torna Jesus diferente de todos eles? O que tem de especial em Jesus de modo que ele não fosse tomado como mais um daqueles falsos messias? A resposta: as profecias.

Jesus conseguiu cumprir todas as profecias previstas no Antigo Testamento. Vou citar algumas e depois vou elaborar um quadro de referências mais extenso. Vamos mencionar só algumas em Isaías: “Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo. Repousará sobre ele o Espírito do Senhor, o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza, o Espírito de conhecimento e de temor do Senhor.” Is. 11:2

Quantas vezes Jesus não foi confrontado com fariseus e outras pessoas trazendo-lhe perguntas teológicas difíceis? Ou mesmo armadilhas capciosas para fazer ele se contradizer em sua fala? Mas em todo os momentos Jesus os derrotava: "E enviaram-lhe alguns dos fariseus e dos herodianos, para que o apanhassem em alguma palavra. [...] Mas Jesus, percebendo-lhes a hipocrisia, respondeu: Por que me experimentais? Trazei-me um denário para que eu o veja." (Mc. 12:13, 15)

Voltamos para Isaías novamente: "quando o Senhor lavar a imundícia das filhas de Sião e limpar Jerusalém da culpa do sangue do meio dela, com o Espírito de justiça e com o Espírito purificador." (Is. 4:4). E então vemos: "Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus." (I Co. 6:11)

E mais uma vez Isaías mostra que o Messias viria para libertar o povo das amarras do pecado, por meio do Espírito Santo: "O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados." (Is. 61:1-3). 

Ora, isso não é justamente a descrição do trabalho de Jesus? Ele mesmo fez referência a essa profecia e seu cumprimento em Lucas 4:21. Uma das marcas do ministério de Jesus na terra era justamente a libertação e purificação. Vejam os milagres: curas de enfermidades, libertações de possessões demoníacas e, principalmente, o perdão dos pecados (que sempre acompanhava os milagres). Estes milagres vinham, dentro deste contexto específico, também para cumprimento das profecias.

Mas isso é tão pouco! Jesus cumpriu uma série de profecias que o qualificavam como o Redentor previsto no Antigo Testamento. Dá uma olhada no quadro abaixo (vou citar só o texto das profecias).

Fato
Profecia
Nascimento em Belém
E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade. (Mq. 5:2)
Fuga para o Egito
“Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho.” (Os. 11:1)
Rejeição pelo povo
Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. (Is. 53:3)
Entrada triunfal em Jerusalém em um jumento
“Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta.” (Zc. 9:9)
Traição por 30 moedas de prata
“Eu lhes disse: se vos parece bem, dai-me o meu salário; e, se não, deixai-o. Pesaram, pois, por meu salário trinta moedas de prata.” (Zc. 11:12)
Morte na cruz
“E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o espírito da graça e de súplicas; olharão para aquele a quem traspassaram” (Zc. 12:10)
Soldados lançando sortes sobre as vestes
“Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica deitam sortes.” (Sl. 22:18)
Nenhum osso quebrado
“Preserva-lhe todos os ossos, nem um deles sequer será quebrado.” (Sl. 34:20)
Sepultado como um rico
“Designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca.” (Is. 53:9)
Ressurreição
“Pois não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção.” (Sl. 16:10)
Ascensão aos céus
“Subiste às alturas, levaste cativo o cativeiro; recebeste homens por dádivas, até mesmo rebeldes, para que o Senhor Deus habite no meio deles.” (Sl. 68:18)

Porque é tão importante saber que Jesus cumpriu essas profecias? Qual a relação do ministério de  Jesus com a ideia de "últimos dias"? A resposta para isso está em que, ao cumprir tudo que estava predito no Antigo Testamento, os discípulos puderam perceber que já estavam nos últimos dias, visto que Jesus havia cumprido a etapa que faltava e inaugurou esta nova era.

Quando Pedro afirma que: "Estes homens não estão embriagados, como vindes pensando, sendo esta a terceira hora do dia. Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos;" At. (2:15-17), ele demonstra ter esse entendimento.

Paulo, em mais de uma ocasião aponta para isso também. Por exemplo: "vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei" (Gl. 4:4) e também "Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado." (I Co. 10:11). 

Não é que o fim "vai chegar", mas ele já tem chegado, o verbo está no particípio, demonstrando a relação do passado com o presente. Essa "plenitude do tempo" que Paulo fala é a vinda de Jesus, quando Jesus tornou pleno aquilo que o Antigo Testamento apenas prefigurava. Em ambos os casos, Paulo reconhece que já está nos últimos dias.

O apóstolo João demonstra amor à igreja ao afirmar: "Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também, agora, muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora." (I Jo. 2:18). Assim como os outros apóstolos, João aponta para a tensão entre o "já" e o "ainda não", em saber que os "últimos dias" já haviam chegado, porém ainda aguardava o dia final.

Essa tensão se manifesta pelo que já falamos: mesmo estando nos últimos dias, há coisas que ainda não aconteceram: os profetas predisseram (e Jesus também) o julgamento do mundo, Jesus também falou de seu retorno, aguardamos o novo céu e a nova terra, o corpo glorificado e por aí vai. Isto quer dizer que alem dos "últimos dias", que são estes que vivemos hoje, há também um outro período que virá depois, o "porvir" ou "era vindoura":
"Então, lhes acrescentou Jesus: Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento; mas os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos não casam, nem se dão em casamento." (Lc. 20:34-35)
"Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á isso perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir."(Mt. 12:32).
"Respondeu-lhes Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba, no presente, muitas vezes mais e, no mundo por vir, a vida eterna." (Lc. 18:29-30)
No livro de João, Jesus chama isso de "o último dia", a referência no singular aponta também para o cumprimento da promessa da ressurreição: "E a vontade de quem me enviou é esta: que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia." (Jo. 6:40) 

Aliás, Esta promessa não era desconhecida pelos crentes do Novo Testamento, veja o que fala Marta na ocasião da morte de Lázaro, antes de Jesus o ressuscitar: "Eu sei, replicou Marta, que ele há de ressurgir na ressurreição, no último dia." (Jo. 11:24)

A escatologia do Novo Testamento, portanto, aponta para o "já" (últimos dias como cumprimento das promessas do A.T.) e para o “ainda não” (aguardando a chegada da era por vir). Porém mais do que isso, há ainda a garantia dessas promessas: 
"e lhes disseram: Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir." (At. 1:11)
"E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação." (Hb. 9:27-28)
O penhor da nossa esperança está em Cristo. Ele mesmo já prefigurou aquilo que há de vir, de maneira análoga ao que o Antigo Testamento fez quando se referia à vinda dele. Por isso, temos a garantia das coisas que hão de vir, já prefiguradas em Cristo, o primogênito dos mortos. O gráfico abaixo dá uma noção visual do que temos falado.



Com isso, meus caros, passamos a ter uma noção do que são os "últimos dias" aos quais a Bíblia se refere em diferentes momentos. Vimos que o grande evento previsto no Antigo Testamento já aconteceu e por isso o Novo Testamento vive a tensão entre o "já" e o "ainda não", estando nos últimos dias, porém ainda na espera do "último dia".

Perceba que sempre há uma relação entre estes dois estágios: as bênçãos do presente (essas bênçãos que nós experimentamos no agora) são a garantia das bênçãos que hão de vir, já são uma prévia delas! É isto que tem que estar em nossa mente. A tensão das coisas que ainda estão por vir é muito esquecida na atualidade (isso remete ao nosso primeiro post sobre escatologia): as pessoas querem viver no agora, como se isso aqui fosse tudo, e esquecem para onde devem olhar.


Vamos fazer como Jeremias: "Quero trazer à memória o que me pode dar esperança." (Lm. 3:21) e viver de modo adequado enquanto esperamos a volta do nosso Senhor Jesus. Até lá, seja Ele vosso guia e vossa luz.



S.D.G.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Escatologia - O reino inaugurado

Como estamos, amigos? Nestes últimos posts temos estudado sobre Escatologia, o estudo dos últimos tempos. Vimos alguns preceitos gerais sobre o tema, depois falamos da Agenda Escatológica de Jesus (o princípio das dores, a grande tribulação e sua gloriosa segunda vinda). Estamos aos poucos traçando um panorama geral e vamos prosseguir falando do Reino de Cristo.
Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem; o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído. (Dn. 7:13-14)

O que é um reino? Só quem habita nele é o rei? O Reino de Deus, onde está? É o céu? É o que encontraremos após a morte? Ou é algo que vai se concretizar no futuro? O reino de Deus está no paradoxo "já + ainda não", vamos ver isso adiante e entenderemos que esta é uma realidade futura, mas também é presente.

Ao falar do Reino de Deus, tem-se que ter em mente que isto é uma promessa escatológica. E, como já vimos, escatologia está presente em toda a Bíblia. Deus é frenquentemente chamado de "rei" na Bíblia. Tanto de Israel: "E o Senhor se tornou rei ao seu povo amado, quando se congregaram os cabeças do povo com as tribos de Israel." (Dt. 33:5), quanto de toda a terra: "O Senhor preside aos dilúvios; como rei, o Senhor presidirá para sempre." (Sl. 29:10).

Quanto à soberania sobre Israel como povo, Deus escolheu se revelar a eles, porém não era restrito aos israelitas (nem nunca foi!). O trabalho do povo de Israel era pregar este Deus a outras nações, e os profetas constantemente deveriam anunciar a verdade de Deus ao mundo. Inclusive, temos relatos de gentios no Antigo Testamento que se converteram, e alguns deles muito importantes para a história de Israel: é o caso de Rute, Jetro e Raabe.

Dentre as promessas e profecias no Antigo Testamento, Deus prometeu que haveria de governar as nações por meio de se Ungido. Vamos citar três textos para ver isso:
"Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz;" (Is. 9:6)
"Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim." (Lc. 1:32-33). O anjo Gabriel ecoando as palavras de Isaías.
"Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre," (Dn. 2:44)
Os textos de Daniel revelam isso de maneira bem clara. Se voltarmos ao texto do começo do post (Dn. 7:13-14), nele vemos que este reino seria destinado ao Filho do Homem, que carregaria todo o propósito de Deus. Este título "Filho do Homem" é apropriado por Jesus. Ele faz uso do termo várias vezes, e quando Judas o trai: "Jesus, porém, lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?" (Lc. 22:48)

O Salmo 2 é bem revelador sobre este reino de Deus. Ele começa: "Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs? Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido, dizendo: Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas." (Sl. 2:1-3). 

Os próximos versos revelam características desse reino. O verso 4, por exemplo, aponta para sua natureza divina: "Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles." (Sl. 2:4). E logo a seguir aponta também para a natureza terrena: "Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião." (Sl. 2:6).

Jesus, por sua vez, tem a combinação perfeita disso. Ele tem o direito ao trono de Israel nos termos das próprias leis de Israel, porque era descendente da linhagem de Davi, a linhagem real! No capítulo 1 de Mateus temos a genealogia de Jesus, que passa por Davi. 

Por outro lado, ele também tem o direito divino de governar, visto que Ele era antes de tudo e tudo foi criado por meio dele. E a Ele também foi destinada a glória de reinar: 
"Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça. Os seus olhos são chama de fogo; na sua cabeça, há muitos diademas; tem um nome escrito que ninguém conhece, senão ele mesmo. Está vestido com um manto tinto de sangue, e o seu nome se chama o Verbo de Deus; [...] Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: Rei dos Reis e Senhor dos Senhores" (Ap. 19:11-13,16).
Estamos vendo constantemente que a ideia deste reino é muito importante na Bíblia. Veja que isto foi bastante citado no Antigo Testamento e até no começo do Novo ainda estava lá: "Naqueles dias, apareceu João Batista pregando no deserto da Judeia e dizia: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus." (Mt. 3:1-2).

João Batista, neste contexto, tinha a função de "emissário do rei". Naquela época, sempre que um rei visitava outro país, era costumeiro que enviasse à frente um emissário, para anunciar a chegada do nobre e garantir os preparos da sua vinda. Isto foi reconhecido pelo próprio Jesus: "Este é de quem está escrito: Eis aí eu envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de ti." (Mt. 11:10)

Aliás, o ministério de João Batista é bem salutar para explicar o reino. Porque até então estamos falando deste reino como se fosse algo no futuro, algo que ainda vai se realizar. O próprio João Batista teve essa dúvida. Vejamos. Quando ele profetizava a chegada de Jesus, parte de sua mensagem era:
"Eu vos batizo com água, para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. A sua pá, ele a tem na mão e limpará completamente a sua eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível." (Mt. 3:11-12)
Esta parte que sublinhei da profecia de João Batista é bem importante, porque aqui ele está apontando para as coisas que Jesus faria, o caráter escatológico da vinda de Jesus. Quando ele profetiza que Jesus vem para "recolher o seu trigo", está se referindo aos santos, à salvação, à colheita daqueles que estavam sendo preparados. Isto aponta para a obra redentora de Cristo na cruz. 

Por outro lado, quando João Batista afirma que ele "queimará a palha", está ainda fazendo a analogia da colheita, em que o trigo será retirado e o campo depois será queimado, destruindo o que não presta. Mais uma vez, isto é complementar ao que o Antigo Testamento fala sobre o reino de Deus e seu Ungido. Até aí tudo bem.

Mas João Batista profetizou isso no começo de seu ministério. Ele viu Jesus ser batizado, viu que ele prosseguiu em seu ministério. Algum tempo depois, porém, João Batista foi preso e da prisão ele percebeu que Jesus realmente veio "recolher o trigo", mas ainda João ainda não estava vendo ele "queimar a palha", ou seja, julgar os incrédulos, por isso perguntou: "Quando João ouviu, no cárcere, falar das obras de Cristo, mandou por seus discípulos perguntar-lhe: És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?" (Mt. 11:2-3).

Jesus respondeu dessa forma: "E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide e anunciai a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho." (Mt. 11:4-5). Jesus está fazendo uma referência direta à Is. 35:5-6, onde está profetizado que na manifestação do reino do Senhor, exatamente estes milagres aconteceriam. 

O que Jesus está apontando é que a profecia de João estava se tornando realidade. O trigo estava sendo colhido e as profecias do Antigo Testamento estavam sendo cumpridas; a parte de "queimar a palha" viria apenas depois. 

Jesus está dizendo para João que já fora inaugurada uma nova fase do reino de Deus. Enquanto João profetizava que o reino estava para chegar, Jesus por sua vez diz: "Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós." Mt. 12:28).

Aqui temos que lembrar que por certo que Deus sempre reinou sobre tudo. O que estamos falando aqui é do reino predito pelos profetas, que aponta para Jesus. É a este reino que Paulo se refere, por exemplo: "Por dois anos, permaneceu Paulo na sua própria casa, que alugara, onde recebia todos que o procuravam, pregando o reino de Deus, e, com toda a intrepidez, sem impedimento algum, ensinava as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo." (At. 28:30-31)

Jesus veio para concretizar essa nova administração da graça de Deus, a inauguração da nova etapa do reino de Deus na terra. Importante a gente lembrar, que ele vem para alargar isso: "Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam." (Rm. 10:12).

Há alguns sinais dessa nova etapa do reino. O fato de Jesus ter autoridade sobre os demônios, como lemos em Mt. 12:28 já é um deles; sobre isso ainda, a queda de Satanás é outro fato relevante (Lc. 10:18), como afirmado por Jesus. Já citamos também o caso dos milagres (Mt. 11:5), que Jesus demonstra a João Batista serem o cumprimento das promessas do Antigo Testamento.

Dois sinais importantes, porém, quero destacar para fechar esse post: um deles é a pregação do evangelho. Em Lucas 10, os setenta discípulos enviados por Jesus voltam entusiasmados: "Então, regressaram os setenta, possuídos de alegria, dizendo: Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome! Mas ele lhes disse: Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago." (Lc. 10:17-18).

Jesus reafirma o poder concedido a eles, mas mostra para eles que não deveriam se alegrar por ter esse poder. Mas sim pelo que deveriam fazer com esse poder: "Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano. Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus." (Lc. 10:19-20)

Era a pregação do evangelho a principal marca, a salvação (ter o nome arrolado nos céus) é que deveria ser o verdadeiro combustível dos discípulos. Essa pregação não era apenas fruto da capacidade dada aos discípulos, mas deveria ser também uma das marcas desta nova fase do reino de Deus. Aliás, cabe lembrar que quando Jesus subiu aos céus, esta foi sua Grande Comissão.

O outro sinal da chegada deste reino que queria destacar é o perdão de pecados. Quando Jesus vem, muda toda a estrutura para a remissão de pecados com o sacrifício dele, e isto era também uma promessa do Antigo Testamento:
Eis aí vêm dias, diz o Senhor, em que firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá. [...] Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor. Pois perdoarei as suas iniquidades e dos seus pecados jamais me lembrarei. (Jr. 31:31, 33-34).
Jesus veio para cumprir isso: "E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação." (Hb. 9:28). 

Não bastasse o sacrifício de Jesus, ele próprio em vida perdoou os pecados de muitos. E este perdão de pecados feito de forma cabal por Cristo marca todo uma nova administração da graça divina sobre seus eleitos, concretizando aquilo que já estava decretado desde a fundação do mundo.


Esta é a tensão entre o "já" e o "ainda não". O reino de Deus chegou com Jesus, mas ainda não está pleno. A realidade do reino de Deus é no presente, não apenas no futuro: "Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados." (Cl. 1:13-14). Nós vivemos isso hoje!

Mas também ainda aguardamos o cumprimento das promessas no futuro: "O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!" (II Tm. 4:18). Nós aguardamos a concretização da agenda escatológica de Jesus com a sua segunda vinda, onde veremos a realização completa da sua promessa!

Vemos então que no hoje, quem crê em Cristo, já faz parte do seu reino. E por isso tem os direitos e deveres de um cidadão deste reinado. Nós temos o privilégio das bênçãos: a comunhão dos santos, o amparo de Deus em meio às tribulações, o conselho divino do Espírito Santo guiando nossas vidas, a oração, o perdão dos pecados, e muito mais! 

Por outro lado, também nos cabe os deveres de habitantes deste reino. Nós devemos cumprir a Grande Comissão de Jesus de ir e espalhar o evangelho ao mundo. Enquanto ele não volta, este é o nosso trabalho. Nossa oração deve ser a mesma de Jesus: "venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu;" (Mt. 6:10).

Pense nas leis de um país: elas devem ser cumpridas? Sim. Mas eu posso cumpri-las apenas amanhã? Não, porque as leis estão vigentes. De mesmo modo é o reino de Deus: ele já é chegado, Jesus já o inaugurou. Temos que agir em conformidade com isso. Percebam que há uma estreita ligaçaõ entre o evangelismo e o reino de Deus inaugurado por Jesus.

Todo este estudo sobre o reino parece fugir um pouco da proposta escatológica, mas isso é um engano. Porque a escatologia vem para reforçar nossa fé e nos dar esperança quanto ao futuro. O problema é que, como já falamos, muitos acham que o reino de Deus é algo que só vai acontecer no futuro. A gente coloca "reino de Deus" no Google e só saem fotos do céu, ruas de ouro e tudo mais. 

Esse estudo serve para mostrar que o reino de Deus já é uma realidade presente. Nós já desfrutamos da graça de Deus por meio de Jesus, com o perdão de pecados derramado sobre nós. Nesse "já", porém, nós ainda trabalhamos enquanto aguardamos a volta do nosso senhor Jesus, em quem reconhecemos: 
Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai. (Fp. 2:9-11)
A este Deus toda a glória. 
Maranata, vem Senhor Jesus!

S.D.G.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Escatologia - A agenda escatológica de Jesus III

Olá, olá senhoras e senhores! Estamos de volta para falar do último ponto da agenda escatológica de Jesus, tal como exposto no capítulo 24 do livro de Mateus. Já passamos pelo "Princípio das Dores" e a "Grande Tribulação", onde percebemos que a Igreja passará por momentos difíceis, porém tem a promessa do resgate ao se manter fiel.

Hoje veremos a maior expressão dessa promessa. O terceiro filme da trilogia. Aqui estamos diante do ponto alto da agenda escatológica de Jesus. Tudo que veio antes veio para culminar nisso: a Segunda Vinda de Jesus. 



Jesus afirmou em seu sermão que voltará e colocará fim na Grande Tribulação: "Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados." (Mt. 24:29). Este será o grande momento, o aguardado pelos milênios! Será também aí que começará o julgamento dos inimigos: 
Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória. E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus. (Mt. 24:30-31)
Com esta grande promessa, Jesus finaliza sua agenda escatológica alertando aos discípulos que também somos nós!) a estarem atentos a estes sinais (Mt. 24:32-33), pois eles estão preditos aqui para nosso benefício e atenção. A partir de agora, vamos destrinchar os versos 29-31, onde vemos detalhadamente a segunda vinda e o que a fala de Jesus tem para nos ensinar.

Começamos com o verso 29, onde diz "o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade": Na cultura judaica, em especial nos profetas, este tipo de presságio significa juízo de Deus. 

Olhe por exemplo Isaías 13:9-10: "Eis que vem o Dia do SENHOR, dia cruel, com ira e ardente furor, para converter a terra em assolação e dela destruir os pecadores. Porque as estrelas e constelações dos céus não darão a sua luz; o sol, logo ao nascer, se escurecerá, e a lua não fará resplandecer a sua luz. 

No profeta Joel isso é ainda mais evidente: "O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR." (Jl. 2:31). Assim, quando Jesus fala essas palavras, ele está realçando o grande dia em que virá para o julgamento.

Ainda no verso 29 lemos que: “as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados.” Jesus está destacando que na sua segunda vinda as próprias estruturas do cosmos serão afetadas!

Algo que é importante lembrar é que a volta de Jesus não é um evento importante apenas para o homem: toda a natureza anseia por isso também! Paulo deixa isso bem claro aos Romanos: "A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus." (Rm. 8:19-21)

Cabe lembrar que o texto que estamos analisando, Mateus 24, é um sermão que Jesus faz aos seus discípulos, por causa da dúvida que eles tinham sobre o fim dos tempos (vs. 3). Na cabeça de muitos dos que ouviam isso, Jesus seria uma espécie de libertador político, e a "consumação dos tempos" seria o retorno de Israel como nação poderosa. 

Mas Jesus usa esse sermão para mostrar que a revelação ia muito além do que eles imaginavam. No verso 30, por exemplo, ele diz que “aparecerá no céu o sinal”. Só ao dizer isso, Jesus já aponta para o céu para mostrar a natureza divina e desconstruir a ideia do libertador terreno. 

Continua o texto e ele se refere a si como o "Filho do Homem". Isto é parte da linguagem profética em Daniel: "Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele." (Dn. 7:13). Jesus está apontando para si como o cumprimento desta profecia. 

A descrição continua no verso 30 ao dizer que virá com "poder e muita glória". Jesus virá com grande manifestação de vitória e majestade, é o gran finale lembram? "Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça." (Ap. 19:11) 

A descrição que continua no capítulo 19 de Apocalipse traz uma imagem deslumbrante! A figura não é mais da ovelha que vem para o matadouro, mas do conquistador que vem para dominar o que é seu por direito. Jesus está fazendo uso aqui de uma boa doutrina escatológica: está apontando o caminho e dando a garantia do cumprimento das promessas. 

Toda essa expressão de poder de Jesus tem um objetivo: o de resgatar a igreja. Basta retomar o verso 31 de Mateus 24. No começo do verso vemos que ele "enviará os seus anjos". A relação entre anjos e Jesus já foi trabalhada neste blog, mas novamente Jesus aponta para sua autoridade espiritual, mostrando aos discípulos que mesmo na tribulação eles podem ter esperança, pois é o Rei dos reis que estará protegendo-os até o dia final.

O verso explica ao fim que estes anjos, guiados pelo Líder: "reunirão os seus escolhidos". Olha só! Tudo isso por causa de nós! Mais uma vez Jesus mostra tremendo amor pelos escolhidos! Toda a agenda escatológica de Jesus é pautada pelo amor aos seus santos. Foi por isso, por exemplo, que abreviou a Grande Tribulação (como vimos no post passado).

A fidelidade da igreja durante as tribulações deve ser não uma obrigação, mas uma resposta a esse amor, a essa maravilhosa promessa: "Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo." (Jo. 16:33).



Como já conversamos, o sermão escatológico de Jesus não veio para gerar medo ou pânico, mas sim para preparar a igreja e encorajá-la, basta lembrar da analogia do piloto e a turbulência. Devemos estar preparados para não sermos levados pela apostasia do Princípio das Dores; para sermos fiel à verdade e o culto a Deus mesmo durante a Grande Tribulação; e para viver o presente de modo digno, pensando no futuro: a segunda vinda de Jesus. Esta é a grande razão de estudarmos escatologia.

"Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida." (Ap. 2:10).




Seja Deus vosso guia e vossa luz.
S.D.G.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Escatologia - A agenda escatológica de Jesus II

Fala pessoal! Vamos dar continuidade à agenda escatológica de Jesus apresentada em Mateus 24. No post passado falamos do primeiro dos três pontos elencados: o princípio das dores, a grande tribulação e a segunda vinda. No princípio das dores vimos: o crescimento da apostasia, o consequente ódio à igreja e seus ideais, e por fim a necessidade que a igreja tem de permanecer fiel em meio a tudo isso. 

Agora vamos seguir em frente e falar do ponto que é o mais mencionado pelos "profetas da destruição", a tão temida Grande Tribulação. A princípio será um post pequeno, já que depois vamos aprofundar aspectos sobre este tópico.


Jesus no seu sermão profético destaca um período de tribulação maior que os outros momentos: "porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais." (Mt. 24:21). Essa tribulação é a que precede uma outra que fica mais próxima de sua vinda (sim! Haverá mais de uma!), basta ver os versos 29 e 30:
Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens. (Mt. 24:29-30)
É preciso que a gente tenha em mente aquilo que foi dito no primeiro post: a escatologia é algo que perpassa todo o conteúdo bíblico. Esta grande tribulação não deveria ser novidade aos discípulos que ouviram as palavras de Jesus, pois já estava prevista em Daniel: "Muitos serão purificados, embranquecidos e provados; mas os perversos procederão perversamente, e nenhum deles entenderá, mas os sábios entenderão. Depois do tempo em que o sacrifício diário for tirado, e posta a abominação desoladora, ..." (Dn. 12:10-11a)

Algo importante que Jesus alerta seus discípulos é: "Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos." (Mt. 24:23-24). Aqui surge uma palavra famosa nos estudos escatológicos: o anticristo.

De maneira bem geral "anti-Cristo" significa simplesmente: "oposto de Cristo". Vamos tratar disso em momento oportuno, mas cabe afirmar que não há somente um anticristo, mas todo aquele que se opõe de maneira veemente a Cristo já pode se caracterizar como um tipo de anticristo.

Vejam só, os judeus entendiam que a profecia de Daniel (a que citei acima) fora cumprida quando Antíoco Epifânio entrou no templo de Jerusalém em 168 a.C. e profanou o santuário. Neste ponto, ele realmente era um tipo de anticristo; porém a profecia não era definitiva ainda, pois Jesus referiu-se a ela para apontar para um tempo que ainda virá.

Há muitos casos em que as profecias não são exclusivas de um único evento. Por exemplo, em 70 d.C. o imperador Tito destruiu o templo em Jerusalém, isto também foi uma forma de cumprimento daquela profecia de Daniel (e várias outras). Jesus faz menção a essa profecia porque os fatos relacionados a ela têm um ponto em comum: apostasia, ir contra o culto a Deus.

E isto é mencionado em outros textos. Veja essa explicação fica tão evidente quando Paulo diz: "Ninguém, de nenhum modo, vos engane, porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus." (II Ts. 2:3-4).

No também famoso relato da besta da terra e a besta do mar (em Apocalipse 13:11-14), vemos que o falso profeta tentará convencer os homens a adorar a "besta", e isto sempre acompanhado de grandes sinais. Assim, o propósito maior do anticristo não é a destruição: mas o engano. Assim como o pecado que jaz em nós, devemos ficar atentos e apegados à Palavra da Verdade para não sermos levados por ventos de falsa doutrina.

Estamos constantemente lembrando que a apostasia produz perseguição e isto não é novidade: "Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos." (II Tm. 3:12). E uma vez que a tática é o engano (e não o medo, como muitos fazem com a escatologia), Jesus está alertando seus discípulos (Mt. 24:25) para que eles não sejam enganados.

Entendam, meus caros, naquela época muitos discípulos acreditavam que a volta de Jesus era uma questão de alguns dias ou semanas, eles achavam que era absolutamente iminente. É nesse contexto que Paulo dá um importante alerta:
"Irmãos, no que diz respeito à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, nós vos exortamos a que não vos demovais da vossa mente, com facilidade, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se procedesse de nós, supondo tenha chegado o Dia do Senhor." (II Ts. 2:1-2)
Veja como é constante na Bíblia o alerta sobre o engano durante a Grande Tribulação. A Bíblia fala sobre as guerras, fomes, terremotos, a perseguição à igreja. Mas o que Jesus e os discípulos estão constantemente realçando não é o que vemos nos filmes! O grande perigo está em sermos enganados pelas falsas doutrinas.

Quanto mais a Igreja se apega à Palavra, mais poderá resistir a isso e mais isto vai irritar o mundo. Porém é justamente essa fidelidade que garante o socorro de Deus durante dias tão difíceis: "Não tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados." (Mt. 24:22)


Por certo que a Grande Tribulação será um momento difícil e de grande perseguição contra a Igreja, como o próprio nome diz. Mas Jesus já nos garantiu que a Igreja sobreviverá, se permanecer fiel a Ele. Não obstante, será também um importante momento de purificação da Igreja, que ajudará a garantir que o remanescente fiel do Senhor viva e continue a glorificá-Lo com suas vidas.

Faça parte desse rol.

Seja Deus vosso guia e vossa luz.
S.D.G.

Escatologia - A agenda escatológica de Jesus I

Fala pessoal! No último post introduzimos o estudo da Escatologia, o estudo dos "últimos tempos". Vamos dar continuidade, partindo da premissa básica que postulamos: que a escatologia não se resume ao Apocalipse, mas perpassa todo o conteúdo bíblico. Dito isto, o post de hoje será sobre o sermão profético de Jesus, registrado em Mateus 24:1-31. Não vou postar o texto todo, mas seria muito interessante o leitor ler, para se situar melhor.

O sermão profético de Jesus em Mt. 24 não é uma descrição cronológica de fatos e tampouco trata de um movimento linear, mas refere-se a acontecimentos que estavam para acontecer (no tempo dos discípulos) e outros que aconteceriam num futuro mais distante. Vamos ver 3 destes acontecimentos: 1) O princípio das dores; 2) A grande tribulação; e 3) A segunda vinda. Não vamos necessariamente nos aprofundar neles, isto ocorrerá em outros posts, mas vamos dar um panorama da visão escatológica de Jesus, exposta em Mt. 24.


O princípio das dores é mencionado por Jesus em Mt 24:4-5: "E ele lhes respondeu: Vede que ninguém vos engane. Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e enganarão a muitos."

Este será um período de crescimento da apostasia. Este termo significa, de modo simples, o afastamento da verdade, tal como mencionado em Rm. 1:18-20: "A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou." É justamente a manipulação da verdade, tornando-a em mentira.

A apostasia não é novidade na Bíblia. Na verdade, ela já havia começado no Éden: "Eis o que tão somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias." (Ec. 7:29). Porém o que Jesus está afirmando é que haverá um aumento desta apostasia, a tal ponto que os próprios discípulos devem ficar atentos: "porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos. Vede que vo-lo tenho predito." (Mt. 24:24-25). Outros apóstolos também reforçaram isto em suas cartas.

João, em mais de uma ocasião, faz menção aos anticristos (ou seja, aqueles que são contra Cristo -- não temam, falaremos deste assunto também em post específico): "Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também, agora, muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora." (I Jo. 2:18). Ensinamento este que repete na sua segunda epístola, em II Jo. 7: "Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo."

Paulo, ao falar com Tito, alerta sobre os palradores frívolos: "Porque existem muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores, especialmente os da circuncisão. É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância." (Tt. 1:10-11).

Pedro, por sua vez, também faz o mesmo alerta: "Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição." (II Pe. 2:1)

Judas também aponta para esta grande apostasia que viria nos últimos tempos: "Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo." (Jd. 4)

Ora, meus caros, conforme lemos estes textos não os vemos como grandes verdades dos tempos presentes? Jesus está alertando que virá um tempo de grande apostasia. Isto é um alerta para os crentes de todas as épocas. E os crentes devem estar preparados: "Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos." (Hb. 2:1).

Nestas épocas difíceis, mais do que nunca, a igreja precisará se apegar com todas as forças às verdades da Escritura e não abrir mão delas: "Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema." (Gl. 1:8-9)

Como consequência natural, chegamos ao segundo momento do princípio das dores: o crescimento da oposição aos cristãos. Quanto mais a igreja se apega à verdade, naturalmente cresce o confronto com um mundo que almeja o mal: "Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia." Jo. 15:19.

Se voltarmos a Mateus 24, vemos nos versos 6 e 7, Jesus apontando que haverá um crescimento da maldade no mundo: "guerras e rumores de guerras", "fomes e terremotos". No verso 8, porém, Jesus afirma que isto é apenas "o princípio das dores". Além disso, no verso 9, ele vai além e destaca que essa maldade vai recair fortemente sobre a igreja: "Então, sereis atribulados, e vos matarão. Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome." (Mt. 24:9).

Neste ponto da leitura ficamos com medo, não é? Por que Jesus falou essas palavras tão fortes? Certamente não foi para assustar os discípulos e também não é para nos assustar. Ele fez isso para que nós saibamos qual o perigo que virá pela frente. Isto é a mesma coisa que ocorre quando o comandante da aeronave avisa os passageiros sobre uma turbulência: não é para assustar, mas para que eles afivelem os cintos e estejam prontos para o futuro.

É justamente por causa disso que no princípio das dores, a igreja deve apegar-se a Deus em meio às dificuldades. Os versos 13 e 14 de Mateus 24 trazem isto: devemos permanecer fieis, pois isto trará fortalecimento. A Igreja persevera mais em tempos de aflição e por isto ela não deve esmorecer quando chegarem os tempos difíceis (e sabemos que eles já chegaram!). A Igreja deve confiar nas promessas de Deus e saber que Jesus logo mais voltará.


Vimos neste post apenas o primeiro dos três pontos da agenda escatológica de Jesus. Veremos um a um para não tornar cansativa a leitura. O que temos que lembrar é: a escatologia vem para nos trazer esperança nas promessas de Jesus! Este deve ser nosso foco, pois é assim que verdadeiramente perseveraremos até o fim.

S.D.G.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Escatologia - I

Hello senhoras e senhores! Estamos aí de volta pra mais uma série de posts, dessa vez sobre Escatologia! Fiquei um bom tempo parado por conta dos estudos e diferentes trabalhos, mas acho que será possível escrever uma boa série de posts sobre este assunto. Estarei, junto com o Presb. Robson, ministrando esta série de aulas aos adolescentes da II Igreja Presbiteriana de Boa Vista.

Devo citar que esta série de estudos são uma adaptação das lições trazidas pela revista Palavra Viva, da editora Cultura Cristã. Ressalto que não é uma mera reprodução do conteúdo, porque eu mesmo busco agregar mais conhecimentos e claro a redação também. De qualquer modo, vamos estudar!


Aí vem a primeira pergunta: o que é escatologia? Acho que a figura acima aí já deu a dica né? A definição básica de escatologia é o "estudo dos últimos tempos", ou "das últimas coisas", basicamente fala do fim do mundo. A grande tribulação, o tal do 666, a besta, a outra besta, a mulher, e tantas outras coisas da escatologia serão estudadas por aqui. Neste post e nos outros vamos construir e desconstruir alguns conceitos aí que são perpetuados pela tradição mas que não estão na Bíblia, a nossa regra de fé e prática. 

A pergunta inicial hoje é: O que a escatologia tem a ver com nós no presente? Na nossa época midiática, é muito comum vermos temas da escatologia presentes em filmes, livros, séries e outros mas todos imbuídos de uma construção ficcional que nem sempre é a verdade.

Um primeiro alerta é: escatologia é o estudo dos últimos tempos, mas ela vai além do "futuro", é algo que está presente hoje. Os estudos de escatologia estão muito mais ligados a esperança cristã do que a saber o que vai acontecer no futuro ou o temor dos últimos tempos. Este aspecto é o que será mais explorado neste post.

O segundo alerta é que escatologia não é sinônimo do Apocalipse. A ideia desta doutrina perpassa toda a Bíblia, justamente porque a esperança cristã é algo que está presente em toda a Bíblia. Basta lembrar da primeira promessa de esperança: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar." (Gn. 3:15)

O terceiro alerta, e talvez o mais importante: NÃO devemos estudar escatologia apenas para satisfazer a curiosidade. Isto é muito, muito importante. Escatologia não serve para ser um documentário do Discovery ou Fantástico, até porque nós nunca vamos conseguir desvendar todos os mistérios que estão ali. Alguns foram deixados sem solução de propósito: Deus quer que aguardemos o dia da Revelação final.

Este último alerta é bem importante, especialmente porque essa série de posts não vem pra necessariamente fazer esses esclarecimentos, mas para utilizar a escatologia com seu real propósito. Satisfazer curiosidades é o que o mundo quer e eu não sou como eles. Devemos tentar entender como essa doutrina afeta a vida cristã hoje. E é isso que passaremos a fazer.


A primeira coisa a destacar é que a escatologia funciona como um mapa: ela propõe uma direção, aponta o caminho e diz onde vamos chegar. Este primeiro aspecto é muito importante porque é justamente um dos maiores problemas atuais da fé cristã: as pessoas esqueceram qual é o seu destino. Vivem uma vida pelo "aqui" e o "agora".

Nosso Deus não é assim. Ele é um Deus teleológico, ou seja, Ele tem propósitos, objetivos. Foi assim desde o começo; o homem, ao ser criado, não ficou a esmo, tinha uma ordenança, um propósito: "E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra." (Gn. 1:28)

Mesmo depois do pecado, Deus continuou a dar um propósito ao homem, garantindo a Ele a imerecida promessa e esperança da redenção. O caso de Caim e Abel é bem propício. Neste contexto, Eva achava que Abel já era o Messias prometido pelo Senhor (e Abel aponta para Cristo mesmo); mas Caim o mata. Mesmo assim, Eva não perde a esperança de que haveria um redentor a vir:

"Coabitou o homem com Eva, sua mulher. Esta concebeu e deu à luz a Caim; então, disse: Adquiri um varão com o auxílio do Senhor. [...] Tornou Adão a coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou." (Gn 4:1,25).

A esperança estava viva em seu coração porque ela não olhava para as circunstâncias do presente, mas lembrava da promessa de Deus e olhava para a direção que Ele havia apontado. De fato ainda estava longe de chegar o Redentor, mas era esta esperança que a mantinha firme.

Esta percepção de olhar para frente e buscar a direção correta é uma marca de toda a Bíblia. Este senso de missão esteve presente em diversos momentos. Apontarei aqui apenas alguns:
Abraão: "Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra. Partiu, pois, Abrão, como lho ordenara o Senhor, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta e cinco anos quando saiu de Harã." (Gn. 12:1-4)
Moisés: "Disse ainda o Senhor: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel; o lugar do cananeu, do heteu, do amorreu, do ferezeu, do heveu e do jebuseu. Pois o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e também vejo a opressão com que os egípcios os estão oprimindo. Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhos de Israel, do Egito." (Ex. 3:7-10).
Josué: "Sê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que, sob juramento, prometi dar a seus pais." (Js. 1:6)
E isto se repete em muitos outros momentos! O que fazia Daniel aguentar todas aquelas situações de perseguição? O que impulsionava o ministério dos profetas? Ora, qual fora a motivação maior dos discípulos de Jesus quando Ele veio, senão justamente as promessas de sua vinda no Antigo Testamento? E depois de sua morte e ressurreição, o que manteve a Igreja e a fez crescer? Ora, não fora a promessa de Jesus em retornar e o novo céu e a nova terra? Não é essa mesma a promessa de esperança e redenção que permanece para nós hoje?

Meus caros, a escatologia não fala apenas do Apocalipse! A Bíblia toda está repleta das promessas de Deus e do propósito que Ele traz ao seu povo. Fica evidente na vida destas pessoas que era a ideia do destino final apontado por Deus que os sustentava. Daí passamos para o nosso segundo ponto.


A escatologia bíblica propõe segurança. O mesmo Deus que traz as promessas é quem garante o cumprimento de todas elas. O mesmo Deus que disse a Josué que daria a ele as terras prometidas a seus antepassados foi quem garantiu que estaria com ele durante todo o processo: "Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o Senhor, teu Deus, é contigo por onde quer que andares." (Js. 1:9)

Nosso Deus sempre cumpre suas promessas: "Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele prometido, não o fará? Ou, tendo falado, não o cumprirá?" (Nm. 23:19)

Lembrem-se do texto que vimos de Abraão. O que leva um homem de 75 anos de idade a sair da sua terra para atender às ordenanças de Deus? Ora, a confiança e a segurança que este mesmo Deus iria cumprir o que havia prometido. Abraão tinha tamanha segurança disso que não teria hesitado em sacrificar o próprio filho se isso fosse necessário, cito dois versículos apenas para lembrar o episódio:
"Tendo Abraão erguido os olhos, viu atrás de si um carneiro preso pelos chifres entre os arbustos; tomou Abraão o carneiro e o ofereceu em holocausto, em lugar de seu filho. E pôs Abraão por nome àquele lugar — O Senhor Proverá. Daí dizer-se até ao dia de hoje: No monte do Senhor se proverá." (Gn. 22:13-14)
Era a confiança escatológica de Abraão que o manteve firme no caminho apesar de todas as circunstâncias, ou seja, a crença nas coisas que ainda aconteceriam. Isso é confirmado pelo autor de Hebreus que diz: "Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber aonde ia." (Hb. 11:8).

Quem tem uma percepção da doutrina escatológica, tem a mesma fé de Abraão. Quem tem o alvo da doutrina escatológica na mente, pensa que nem Paulo: "Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus." (Fp 1:6).

E vale lembrar que essa fé não é cega. Nós não cremos porque cremos, nós temos ao nosso lado a lógica, os fatos, e diversos outros motivos para demonstrar que há razão na nossa esperança, que nossas ideias e ideais não são loucuras, mas tem em si motivos também intelectuais. Para saber mais sobre isto, basta ver a série de posts sobre Apologética neste blog.


Neste terceiro e último ponto, lembramos que a Bíblia aponta o destino final da existência humana: "Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros." (Ap. 20:11-12)

Em nossas vidas, cada acontecimento está sob o Decreto Eterno de Deus (doutrina que podemos estudar em tempo oportuno). Não obstante, a nossa vida é uma soma, um conjunto das decisões que tomamos conforme o tempo passa. O que a Bíblia nos relembra é que nós prestaremos conta dessas ações. A ideia do juízo está presente na Bíblia também:
"Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más." (Ec. 12:14)
"é porque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos para o Dia de Juízo," (II Pe. 2:9)
O conhecimento de uma boa doutrina escatológica automaticamente nos leva a um estilo de vida próprio. Quando o cristão tem os olhos nas promessas e esperanças que a escatologia relembra, ele entende que a sua vida não pode ser pautada pelo comportamento do que é terreno: ele sabe que deve ter um padrão de alguém do Reino dos Céus. Este é o terceiro e último ponto: a escatologia bíblica nos propõe um padrão a seguir.

Isto significa que o cristão já deve ter agora a perspectiva do futuro e viver pautado por ela. Lembro do exemplo de um pastor já idoso cristão que dizia claramente: "Eu sei que sou velho, mas também sei que não vou morrer". Ué! Mas como assim?, eu pensei. Aí ele complementou: "Esse meu corpo pode até perecer, mas eu não sou um cidadão dessa terra, eu pertenço ao Reino dos Céus, e é lá que vou morar."

Que profundo! E quão verdadeiro é isso! Se tivéssemos sempre esta mentalidade, estariam solucionados tantos problemas dentro das igrejas e nos testemunhos de pessoas ditas cristãs. A escatologia serve também para nos lembrar de como devemos viver nossa vida no presente.

Esse padrão de vida, em verdade, é o esperado de todo verdadeiro cristão que anseia a volta de Jesus. Paulo viveu sua vida na terra lembrando sempre de qual era seu destino final: "Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda." (II Tm. 4:7-8)
"Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se. E eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras [no sangue do Cordeiro], para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas." (Ap. 22: 11-14)
É exatamente essa percepção que deve nos impelir a viver adequadamente aqui. Não por obrigação nem porque "a Bíblia manda"! Não! Nós fazemos (e eu estou incluso nisso) porque temos a maior de todas as alegrias em servir ao nosso Deus e não vemos a hora de vê-lo voltar, e Ele nos encontre vivendo em Seus caminhos. Ah quão doce esperança! (Maranata!)



Vimos portanto que a doutrina da escatologia nos ajuda: a) a dar um sentido para nossa vida; b) a ter esperança no futuro; e c) nos lembra como devemos viver no presente. Mas é importante ainda lembrar que para ter uma verdadeira fé escatológica nós precisamos de pelo menos três elementos:

  1. Conhecer a Palavra de Deus para termos a verdadeira confiança e sabermos o caminho: "Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos." (Sl. 119:105).
  2. Conhecer e reconhecer o caráter de Deus, saber que Ele é perfeito e não falha. Foi o que Sara fez: "Pela fé, também, a própria Sara recebeu poder para ser mãe, não obstante o avançado de sua idade, pois teve por fiel aquele que lhe havia feito a promessa." (Hb. 11:11)
  3. (Re)conhecer a necessidade humana da ação divina: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer." (Jo. 15:5)
Finalizamos este primeiro post lembrando que nossa esperança deve estar em Cristo. É disto que trata, em última instância a escatologia. É por causa desta esperança que temos no hoje as alegrias dos tempos vindouros: "Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo;" (I Pe. 1:6-7).

Que o Deus do passado, presente e futuro seja vosso guia e vossa luz.
Até o próximo post.

S.D.G.