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sábado, 27 de janeiro de 2018

Escatologia - A agenda escatológica de Jesus III

Olá, olá senhoras e senhores! Estamos de volta para falar do último ponto da agenda escatológica de Jesus, tal como exposto no capítulo 24 do livro de Mateus. Já passamos pelo "Princípio das Dores" e a "Grande Tribulação", onde percebemos que a Igreja passará por momentos difíceis, porém tem a promessa do resgate ao se manter fiel.

Hoje veremos a maior expressão dessa promessa. O terceiro filme da trilogia. Aqui estamos diante do ponto alto da agenda escatológica de Jesus. Tudo que veio antes veio para culminar nisso: a Segunda Vinda de Jesus. 



Jesus afirmou em seu sermão que voltará e colocará fim na Grande Tribulação: "Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados." (Mt. 24:29). Este será o grande momento, o aguardado pelos milênios! Será também aí que começará o julgamento dos inimigos: 
Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória. E ele enviará os seus anjos, com grande clangor de trombeta, os quais reunirão os seus escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus. (Mt. 24:30-31)
Com esta grande promessa, Jesus finaliza sua agenda escatológica alertando aos discípulos que também somos nós!) a estarem atentos a estes sinais (Mt. 24:32-33), pois eles estão preditos aqui para nosso benefício e atenção. A partir de agora, vamos destrinchar os versos 29-31, onde vemos detalhadamente a segunda vinda e o que a fala de Jesus tem para nos ensinar.

Começamos com o verso 29, onde diz "o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade": Na cultura judaica, em especial nos profetas, este tipo de presságio significa juízo de Deus. 

Olhe por exemplo Isaías 13:9-10: "Eis que vem o Dia do SENHOR, dia cruel, com ira e ardente furor, para converter a terra em assolação e dela destruir os pecadores. Porque as estrelas e constelações dos céus não darão a sua luz; o sol, logo ao nascer, se escurecerá, e a lua não fará resplandecer a sua luz. 

No profeta Joel isso é ainda mais evidente: "O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR." (Jl. 2:31). Assim, quando Jesus fala essas palavras, ele está realçando o grande dia em que virá para o julgamento.

Ainda no verso 29 lemos que: “as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados.” Jesus está destacando que na sua segunda vinda as próprias estruturas do cosmos serão afetadas!

Algo que é importante lembrar é que a volta de Jesus não é um evento importante apenas para o homem: toda a natureza anseia por isso também! Paulo deixa isso bem claro aos Romanos: "A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus." (Rm. 8:19-21)

Cabe lembrar que o texto que estamos analisando, Mateus 24, é um sermão que Jesus faz aos seus discípulos, por causa da dúvida que eles tinham sobre o fim dos tempos (vs. 3). Na cabeça de muitos dos que ouviam isso, Jesus seria uma espécie de libertador político, e a "consumação dos tempos" seria o retorno de Israel como nação poderosa. 

Mas Jesus usa esse sermão para mostrar que a revelação ia muito além do que eles imaginavam. No verso 30, por exemplo, ele diz que “aparecerá no céu o sinal”. Só ao dizer isso, Jesus já aponta para o céu para mostrar a natureza divina e desconstruir a ideia do libertador terreno. 

Continua o texto e ele se refere a si como o "Filho do Homem". Isto é parte da linguagem profética em Daniel: "Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele." (Dn. 7:13). Jesus está apontando para si como o cumprimento desta profecia. 

A descrição continua no verso 30 ao dizer que virá com "poder e muita glória". Jesus virá com grande manifestação de vitória e majestade, é o gran finale lembram? "Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cavaleiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça." (Ap. 19:11) 

A descrição que continua no capítulo 19 de Apocalipse traz uma imagem deslumbrante! A figura não é mais da ovelha que vem para o matadouro, mas do conquistador que vem para dominar o que é seu por direito. Jesus está fazendo uso aqui de uma boa doutrina escatológica: está apontando o caminho e dando a garantia do cumprimento das promessas. 

Toda essa expressão de poder de Jesus tem um objetivo: o de resgatar a igreja. Basta retomar o verso 31 de Mateus 24. No começo do verso vemos que ele "enviará os seus anjos". A relação entre anjos e Jesus já foi trabalhada neste blog, mas novamente Jesus aponta para sua autoridade espiritual, mostrando aos discípulos que mesmo na tribulação eles podem ter esperança, pois é o Rei dos reis que estará protegendo-os até o dia final.

O verso explica ao fim que estes anjos, guiados pelo Líder: "reunirão os seus escolhidos". Olha só! Tudo isso por causa de nós! Mais uma vez Jesus mostra tremendo amor pelos escolhidos! Toda a agenda escatológica de Jesus é pautada pelo amor aos seus santos. Foi por isso, por exemplo, que abreviou a Grande Tribulação (como vimos no post passado).

A fidelidade da igreja durante as tribulações deve ser não uma obrigação, mas uma resposta a esse amor, a essa maravilhosa promessa: "Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo." (Jo. 16:33).



Como já conversamos, o sermão escatológico de Jesus não veio para gerar medo ou pânico, mas sim para preparar a igreja e encorajá-la, basta lembrar da analogia do piloto e a turbulência. Devemos estar preparados para não sermos levados pela apostasia do Princípio das Dores; para sermos fiel à verdade e o culto a Deus mesmo durante a Grande Tribulação; e para viver o presente de modo digno, pensando no futuro: a segunda vinda de Jesus. Esta é a grande razão de estudarmos escatologia.

"Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida." (Ap. 2:10).




Seja Deus vosso guia e vossa luz.
S.D.G.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Escatologia - A agenda escatológica de Jesus II

Fala pessoal! Vamos dar continuidade à agenda escatológica de Jesus apresentada em Mateus 24. No post passado falamos do primeiro dos três pontos elencados: o princípio das dores, a grande tribulação e a segunda vinda. No princípio das dores vimos: o crescimento da apostasia, o consequente ódio à igreja e seus ideais, e por fim a necessidade que a igreja tem de permanecer fiel em meio a tudo isso. 

Agora vamos seguir em frente e falar do ponto que é o mais mencionado pelos "profetas da destruição", a tão temida Grande Tribulação. A princípio será um post pequeno, já que depois vamos aprofundar aspectos sobre este tópico.


Jesus no seu sermão profético destaca um período de tribulação maior que os outros momentos: "porque nesse tempo haverá grande tribulação, como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais." (Mt. 24:21). Essa tribulação é a que precede uma outra que fica mais próxima de sua vinda (sim! Haverá mais de uma!), basta ver os versos 29 e 30:
Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens. (Mt. 24:29-30)
É preciso que a gente tenha em mente aquilo que foi dito no primeiro post: a escatologia é algo que perpassa todo o conteúdo bíblico. Esta grande tribulação não deveria ser novidade aos discípulos que ouviram as palavras de Jesus, pois já estava prevista em Daniel: "Muitos serão purificados, embranquecidos e provados; mas os perversos procederão perversamente, e nenhum deles entenderá, mas os sábios entenderão. Depois do tempo em que o sacrifício diário for tirado, e posta a abominação desoladora, ..." (Dn. 12:10-11a)

Algo importante que Jesus alerta seus discípulos é: "Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos." (Mt. 24:23-24). Aqui surge uma palavra famosa nos estudos escatológicos: o anticristo.

De maneira bem geral "anti-Cristo" significa simplesmente: "oposto de Cristo". Vamos tratar disso em momento oportuno, mas cabe afirmar que não há somente um anticristo, mas todo aquele que se opõe de maneira veemente a Cristo já pode se caracterizar como um tipo de anticristo.

Vejam só, os judeus entendiam que a profecia de Daniel (a que citei acima) fora cumprida quando Antíoco Epifânio entrou no templo de Jerusalém em 168 a.C. e profanou o santuário. Neste ponto, ele realmente era um tipo de anticristo; porém a profecia não era definitiva ainda, pois Jesus referiu-se a ela para apontar para um tempo que ainda virá.

Há muitos casos em que as profecias não são exclusivas de um único evento. Por exemplo, em 70 d.C. o imperador Tito destruiu o templo em Jerusalém, isto também foi uma forma de cumprimento daquela profecia de Daniel (e várias outras). Jesus faz menção a essa profecia porque os fatos relacionados a ela têm um ponto em comum: apostasia, ir contra o culto a Deus.

E isto é mencionado em outros textos. Veja essa explicação fica tão evidente quando Paulo diz: "Ninguém, de nenhum modo, vos engane, porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus ou é objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus." (II Ts. 2:3-4).

No também famoso relato da besta da terra e a besta do mar (em Apocalipse 13:11-14), vemos que o falso profeta tentará convencer os homens a adorar a "besta", e isto sempre acompanhado de grandes sinais. Assim, o propósito maior do anticristo não é a destruição: mas o engano. Assim como o pecado que jaz em nós, devemos ficar atentos e apegados à Palavra da Verdade para não sermos levados por ventos de falsa doutrina.

Estamos constantemente lembrando que a apostasia produz perseguição e isto não é novidade: "Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos." (II Tm. 3:12). E uma vez que a tática é o engano (e não o medo, como muitos fazem com a escatologia), Jesus está alertando seus discípulos (Mt. 24:25) para que eles não sejam enganados.

Entendam, meus caros, naquela época muitos discípulos acreditavam que a volta de Jesus era uma questão de alguns dias ou semanas, eles achavam que era absolutamente iminente. É nesse contexto que Paulo dá um importante alerta:
"Irmãos, no que diz respeito à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, nós vos exortamos a que não vos demovais da vossa mente, com facilidade, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se procedesse de nós, supondo tenha chegado o Dia do Senhor." (II Ts. 2:1-2)
Veja como é constante na Bíblia o alerta sobre o engano durante a Grande Tribulação. A Bíblia fala sobre as guerras, fomes, terremotos, a perseguição à igreja. Mas o que Jesus e os discípulos estão constantemente realçando não é o que vemos nos filmes! O grande perigo está em sermos enganados pelas falsas doutrinas.

Quanto mais a Igreja se apega à Palavra, mais poderá resistir a isso e mais isto vai irritar o mundo. Porém é justamente essa fidelidade que garante o socorro de Deus durante dias tão difíceis: "Não tivessem aqueles dias sido abreviados, ninguém seria salvo; mas, por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados." (Mt. 24:22)


Por certo que a Grande Tribulação será um momento difícil e de grande perseguição contra a Igreja, como o próprio nome diz. Mas Jesus já nos garantiu que a Igreja sobreviverá, se permanecer fiel a Ele. Não obstante, será também um importante momento de purificação da Igreja, que ajudará a garantir que o remanescente fiel do Senhor viva e continue a glorificá-Lo com suas vidas.

Faça parte desse rol.

Seja Deus vosso guia e vossa luz.
S.D.G.

Escatologia - A agenda escatológica de Jesus I

Fala pessoal! No último post introduzimos o estudo da Escatologia, o estudo dos "últimos tempos". Vamos dar continuidade, partindo da premissa básica que postulamos: que a escatologia não se resume ao Apocalipse, mas perpassa todo o conteúdo bíblico. Dito isto, o post de hoje será sobre o sermão profético de Jesus, registrado em Mateus 24:1-31. Não vou postar o texto todo, mas seria muito interessante o leitor ler, para se situar melhor.

O sermão profético de Jesus em Mt. 24 não é uma descrição cronológica de fatos e tampouco trata de um movimento linear, mas refere-se a acontecimentos que estavam para acontecer (no tempo dos discípulos) e outros que aconteceriam num futuro mais distante. Vamos ver 3 destes acontecimentos: 1) O princípio das dores; 2) A grande tribulação; e 3) A segunda vinda. Não vamos necessariamente nos aprofundar neles, isto ocorrerá em outros posts, mas vamos dar um panorama da visão escatológica de Jesus, exposta em Mt. 24.


O princípio das dores é mencionado por Jesus em Mt 24:4-5: "E ele lhes respondeu: Vede que ninguém vos engane. Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e enganarão a muitos."

Este será um período de crescimento da apostasia. Este termo significa, de modo simples, o afastamento da verdade, tal como mencionado em Rm. 1:18-20: "A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou." É justamente a manipulação da verdade, tornando-a em mentira.

A apostasia não é novidade na Bíblia. Na verdade, ela já havia começado no Éden: "Eis o que tão somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias." (Ec. 7:29). Porém o que Jesus está afirmando é que haverá um aumento desta apostasia, a tal ponto que os próprios discípulos devem ficar atentos: "porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos. Vede que vo-lo tenho predito." (Mt. 24:24-25). Outros apóstolos também reforçaram isto em suas cartas.

João, em mais de uma ocasião, faz menção aos anticristos (ou seja, aqueles que são contra Cristo -- não temam, falaremos deste assunto também em post específico): "Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também, agora, muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora." (I Jo. 2:18). Ensinamento este que repete na sua segunda epístola, em II Jo. 7: "Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne; assim é o enganador e o anticristo."

Paulo, ao falar com Tito, alerta sobre os palradores frívolos: "Porque existem muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores, especialmente os da circuncisão. É preciso fazê-los calar, porque andam pervertendo casas inteiras, ensinando o que não devem, por torpe ganância." (Tt. 1:10-11).

Pedro, por sua vez, também faz o mesmo alerta: "Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição." (II Pe. 2:1)

Judas também aponta para esta grande apostasia que viria nos últimos tempos: "Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo." (Jd. 4)

Ora, meus caros, conforme lemos estes textos não os vemos como grandes verdades dos tempos presentes? Jesus está alertando que virá um tempo de grande apostasia. Isto é um alerta para os crentes de todas as épocas. E os crentes devem estar preparados: "Por esta razão, importa que nos apeguemos, com mais firmeza, às verdades ouvidas, para que delas jamais nos desviemos." (Hb. 2:1).

Nestas épocas difíceis, mais do que nunca, a igreja precisará se apegar com todas as forças às verdades da Escritura e não abrir mão delas: "Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema." (Gl. 1:8-9)

Como consequência natural, chegamos ao segundo momento do princípio das dores: o crescimento da oposição aos cristãos. Quanto mais a igreja se apega à verdade, naturalmente cresce o confronto com um mundo que almeja o mal: "Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia." Jo. 15:19.

Se voltarmos a Mateus 24, vemos nos versos 6 e 7, Jesus apontando que haverá um crescimento da maldade no mundo: "guerras e rumores de guerras", "fomes e terremotos". No verso 8, porém, Jesus afirma que isto é apenas "o princípio das dores". Além disso, no verso 9, ele vai além e destaca que essa maldade vai recair fortemente sobre a igreja: "Então, sereis atribulados, e vos matarão. Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome." (Mt. 24:9).

Neste ponto da leitura ficamos com medo, não é? Por que Jesus falou essas palavras tão fortes? Certamente não foi para assustar os discípulos e também não é para nos assustar. Ele fez isso para que nós saibamos qual o perigo que virá pela frente. Isto é a mesma coisa que ocorre quando o comandante da aeronave avisa os passageiros sobre uma turbulência: não é para assustar, mas para que eles afivelem os cintos e estejam prontos para o futuro.

É justamente por causa disso que no princípio das dores, a igreja deve apegar-se a Deus em meio às dificuldades. Os versos 13 e 14 de Mateus 24 trazem isto: devemos permanecer fieis, pois isto trará fortalecimento. A Igreja persevera mais em tempos de aflição e por isto ela não deve esmorecer quando chegarem os tempos difíceis (e sabemos que eles já chegaram!). A Igreja deve confiar nas promessas de Deus e saber que Jesus logo mais voltará.


Vimos neste post apenas o primeiro dos três pontos da agenda escatológica de Jesus. Veremos um a um para não tornar cansativa a leitura. O que temos que lembrar é: a escatologia vem para nos trazer esperança nas promessas de Jesus! Este deve ser nosso foco, pois é assim que verdadeiramente perseveraremos até o fim.

S.D.G.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Escatologia - I

Hello senhoras e senhores! Estamos aí de volta pra mais uma série de posts, dessa vez sobre Escatologia! Fiquei um bom tempo parado por conta dos estudos e diferentes trabalhos, mas acho que será possível escrever uma boa série de posts sobre este assunto. Estarei, junto com o Presb. Robson, ministrando esta série de aulas aos adolescentes da II Igreja Presbiteriana de Boa Vista.

Devo citar que esta série de estudos são uma adaptação das lições trazidas pela revista Palavra Viva, da editora Cultura Cristã. Ressalto que não é uma mera reprodução do conteúdo, porque eu mesmo busco agregar mais conhecimentos e claro a redação também. De qualquer modo, vamos estudar!


Aí vem a primeira pergunta: o que é escatologia? Acho que a figura acima aí já deu a dica né? A definição básica de escatologia é o "estudo dos últimos tempos", ou "das últimas coisas", basicamente fala do fim do mundo. A grande tribulação, o tal do 666, a besta, a outra besta, a mulher, e tantas outras coisas da escatologia serão estudadas por aqui. Neste post e nos outros vamos construir e desconstruir alguns conceitos aí que são perpetuados pela tradição mas que não estão na Bíblia, a nossa regra de fé e prática. 

A pergunta inicial hoje é: O que a escatologia tem a ver com nós no presente? Na nossa época midiática, é muito comum vermos temas da escatologia presentes em filmes, livros, séries e outros mas todos imbuídos de uma construção ficcional que nem sempre é a verdade.

Um primeiro alerta é: escatologia é o estudo dos últimos tempos, mas ela vai além do "futuro", é algo que está presente hoje. Os estudos de escatologia estão muito mais ligados a esperança cristã do que a saber o que vai acontecer no futuro ou o temor dos últimos tempos. Este aspecto é o que será mais explorado neste post.

O segundo alerta é que escatologia não é sinônimo do Apocalipse. A ideia desta doutrina perpassa toda a Bíblia, justamente porque a esperança cristã é algo que está presente em toda a Bíblia. Basta lembrar da primeira promessa de esperança: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar." (Gn. 3:15)

O terceiro alerta, e talvez o mais importante: NÃO devemos estudar escatologia apenas para satisfazer a curiosidade. Isto é muito, muito importante. Escatologia não serve para ser um documentário do Discovery ou Fantástico, até porque nós nunca vamos conseguir desvendar todos os mistérios que estão ali. Alguns foram deixados sem solução de propósito: Deus quer que aguardemos o dia da Revelação final.

Este último alerta é bem importante, especialmente porque essa série de posts não vem pra necessariamente fazer esses esclarecimentos, mas para utilizar a escatologia com seu real propósito. Satisfazer curiosidades é o que o mundo quer e eu não sou como eles. Devemos tentar entender como essa doutrina afeta a vida cristã hoje. E é isso que passaremos a fazer.


A primeira coisa a destacar é que a escatologia funciona como um mapa: ela propõe uma direção, aponta o caminho e diz onde vamos chegar. Este primeiro aspecto é muito importante porque é justamente um dos maiores problemas atuais da fé cristã: as pessoas esqueceram qual é o seu destino. Vivem uma vida pelo "aqui" e o "agora".

Nosso Deus não é assim. Ele é um Deus teleológico, ou seja, Ele tem propósitos, objetivos. Foi assim desde o começo; o homem, ao ser criado, não ficou a esmo, tinha uma ordenança, um propósito: "E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra." (Gn. 1:28)

Mesmo depois do pecado, Deus continuou a dar um propósito ao homem, garantindo a Ele a imerecida promessa e esperança da redenção. O caso de Caim e Abel é bem propício. Neste contexto, Eva achava que Abel já era o Messias prometido pelo Senhor (e Abel aponta para Cristo mesmo); mas Caim o mata. Mesmo assim, Eva não perde a esperança de que haveria um redentor a vir:

"Coabitou o homem com Eva, sua mulher. Esta concebeu e deu à luz a Caim; então, disse: Adquiri um varão com o auxílio do Senhor. [...] Tornou Adão a coabitar com sua mulher; e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel, que Caim matou." (Gn 4:1,25).

A esperança estava viva em seu coração porque ela não olhava para as circunstâncias do presente, mas lembrava da promessa de Deus e olhava para a direção que Ele havia apontado. De fato ainda estava longe de chegar o Redentor, mas era esta esperança que a mantinha firme.

Esta percepção de olhar para frente e buscar a direção correta é uma marca de toda a Bíblia. Este senso de missão esteve presente em diversos momentos. Apontarei aqui apenas alguns:
Abraão: "Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra. Partiu, pois, Abrão, como lho ordenara o Senhor, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta e cinco anos quando saiu de Harã." (Gn. 12:1-4)
Moisés: "Disse ainda o Senhor: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel; o lugar do cananeu, do heteu, do amorreu, do ferezeu, do heveu e do jebuseu. Pois o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e também vejo a opressão com que os egípcios os estão oprimindo. Vem, agora, e eu te enviarei a Faraó, para que tires o meu povo, os filhos de Israel, do Egito." (Ex. 3:7-10).
Josué: "Sê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que, sob juramento, prometi dar a seus pais." (Js. 1:6)
E isto se repete em muitos outros momentos! O que fazia Daniel aguentar todas aquelas situações de perseguição? O que impulsionava o ministério dos profetas? Ora, qual fora a motivação maior dos discípulos de Jesus quando Ele veio, senão justamente as promessas de sua vinda no Antigo Testamento? E depois de sua morte e ressurreição, o que manteve a Igreja e a fez crescer? Ora, não fora a promessa de Jesus em retornar e o novo céu e a nova terra? Não é essa mesma a promessa de esperança e redenção que permanece para nós hoje?

Meus caros, a escatologia não fala apenas do Apocalipse! A Bíblia toda está repleta das promessas de Deus e do propósito que Ele traz ao seu povo. Fica evidente na vida destas pessoas que era a ideia do destino final apontado por Deus que os sustentava. Daí passamos para o nosso segundo ponto.


A escatologia bíblica propõe segurança. O mesmo Deus que traz as promessas é quem garante o cumprimento de todas elas. O mesmo Deus que disse a Josué que daria a ele as terras prometidas a seus antepassados foi quem garantiu que estaria com ele durante todo o processo: "Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o Senhor, teu Deus, é contigo por onde quer que andares." (Js. 1:9)

Nosso Deus sempre cumpre suas promessas: "Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele prometido, não o fará? Ou, tendo falado, não o cumprirá?" (Nm. 23:19)

Lembrem-se do texto que vimos de Abraão. O que leva um homem de 75 anos de idade a sair da sua terra para atender às ordenanças de Deus? Ora, a confiança e a segurança que este mesmo Deus iria cumprir o que havia prometido. Abraão tinha tamanha segurança disso que não teria hesitado em sacrificar o próprio filho se isso fosse necessário, cito dois versículos apenas para lembrar o episódio:
"Tendo Abraão erguido os olhos, viu atrás de si um carneiro preso pelos chifres entre os arbustos; tomou Abraão o carneiro e o ofereceu em holocausto, em lugar de seu filho. E pôs Abraão por nome àquele lugar — O Senhor Proverá. Daí dizer-se até ao dia de hoje: No monte do Senhor se proverá." (Gn. 22:13-14)
Era a confiança escatológica de Abraão que o manteve firme no caminho apesar de todas as circunstâncias, ou seja, a crença nas coisas que ainda aconteceriam. Isso é confirmado pelo autor de Hebreus que diz: "Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber aonde ia." (Hb. 11:8).

Quem tem uma percepção da doutrina escatológica, tem a mesma fé de Abraão. Quem tem o alvo da doutrina escatológica na mente, pensa que nem Paulo: "Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus." (Fp 1:6).

E vale lembrar que essa fé não é cega. Nós não cremos porque cremos, nós temos ao nosso lado a lógica, os fatos, e diversos outros motivos para demonstrar que há razão na nossa esperança, que nossas ideias e ideais não são loucuras, mas tem em si motivos também intelectuais. Para saber mais sobre isto, basta ver a série de posts sobre Apologética neste blog.


Neste terceiro e último ponto, lembramos que a Bíblia aponta o destino final da existência humana: "Vi um grande trono branco e aquele que nele se assenta, de cuja presença fugiram a terra e o céu, e não se achou lugar para eles. Vi também os mortos, os grandes e os pequenos, postos em pé diante do trono. Então, se abriram livros. Ainda outro livro, o Livro da Vida, foi aberto. E os mortos foram julgados, segundo as suas obras, conforme o que se achava escrito nos livros." (Ap. 20:11-12)

Em nossas vidas, cada acontecimento está sob o Decreto Eterno de Deus (doutrina que podemos estudar em tempo oportuno). Não obstante, a nossa vida é uma soma, um conjunto das decisões que tomamos conforme o tempo passa. O que a Bíblia nos relembra é que nós prestaremos conta dessas ações. A ideia do juízo está presente na Bíblia também:
"Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más." (Ec. 12:14)
"é porque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos para o Dia de Juízo," (II Pe. 2:9)
O conhecimento de uma boa doutrina escatológica automaticamente nos leva a um estilo de vida próprio. Quando o cristão tem os olhos nas promessas e esperanças que a escatologia relembra, ele entende que a sua vida não pode ser pautada pelo comportamento do que é terreno: ele sabe que deve ter um padrão de alguém do Reino dos Céus. Este é o terceiro e último ponto: a escatologia bíblica nos propõe um padrão a seguir.

Isto significa que o cristão já deve ter agora a perspectiva do futuro e viver pautado por ela. Lembro do exemplo de um pastor já idoso cristão que dizia claramente: "Eu sei que sou velho, mas também sei que não vou morrer". Ué! Mas como assim?, eu pensei. Aí ele complementou: "Esse meu corpo pode até perecer, mas eu não sou um cidadão dessa terra, eu pertenço ao Reino dos Céus, e é lá que vou morar."

Que profundo! E quão verdadeiro é isso! Se tivéssemos sempre esta mentalidade, estariam solucionados tantos problemas dentro das igrejas e nos testemunhos de pessoas ditas cristãs. A escatologia serve também para nos lembrar de como devemos viver nossa vida no presente.

Esse padrão de vida, em verdade, é o esperado de todo verdadeiro cristão que anseia a volta de Jesus. Paulo viveu sua vida na terra lembrando sempre de qual era seu destino final: "Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele Dia; e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a sua vinda." (II Tm. 4:7-8)
"Continue o injusto fazendo injustiça, continue o imundo ainda sendo imundo; o justo continue na prática da justiça, e o santo continue a santificar-se. E eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras [no sangue do Cordeiro], para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas." (Ap. 22: 11-14)
É exatamente essa percepção que deve nos impelir a viver adequadamente aqui. Não por obrigação nem porque "a Bíblia manda"! Não! Nós fazemos (e eu estou incluso nisso) porque temos a maior de todas as alegrias em servir ao nosso Deus e não vemos a hora de vê-lo voltar, e Ele nos encontre vivendo em Seus caminhos. Ah quão doce esperança! (Maranata!)



Vimos portanto que a doutrina da escatologia nos ajuda: a) a dar um sentido para nossa vida; b) a ter esperança no futuro; e c) nos lembra como devemos viver no presente. Mas é importante ainda lembrar que para ter uma verdadeira fé escatológica nós precisamos de pelo menos três elementos:

  1. Conhecer a Palavra de Deus para termos a verdadeira confiança e sabermos o caminho: "Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos." (Sl. 119:105).
  2. Conhecer e reconhecer o caráter de Deus, saber que Ele é perfeito e não falha. Foi o que Sara fez: "Pela fé, também, a própria Sara recebeu poder para ser mãe, não obstante o avançado de sua idade, pois teve por fiel aquele que lhe havia feito a promessa." (Hb. 11:11)
  3. (Re)conhecer a necessidade humana da ação divina: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer." (Jo. 15:5)
Finalizamos este primeiro post lembrando que nossa esperança deve estar em Cristo. É disto que trata, em última instância a escatologia. É por causa desta esperança que temos no hoje as alegrias dos tempos vindouros: "Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo;" (I Pe. 1:6-7).

Que o Deus do passado, presente e futuro seja vosso guia e vossa luz.
Até o próximo post.

S.D.G.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Apologética - A glória de Deus: vaidade? (II)

Hello, hello! Nesta última braçada de estudos sobre Apologética, estamos buscando entender um pouco mais sobre a glória de Deus e nos questionando se Ele é um ser egoísta por querer essa glória toda para si. No último post vimos um pouco da razão pela qual Deus detém toda essa glória, da Sua autoridade e poder. 

Notem que ainda não respondemos bem a pergunta se Deus quer a glória para si porque seria alguém narcisista; e finalizamos o último post com um teaser: O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. Mas... qual é o fim principal de Deus? Quais são as motivações de Seu coração? Existe algo que o move? Ele tem algum objetivo com Seus planos?


 Vou deixar que os textos bíblicos respondam a essas perguntas, observando o caso de Israel:
"Direi ao Norte: entrega! E ao Sul: não retenhas! Trazei meus filhos de longe e minhas filhas, das extremidades da terra, a todos os que são chamados pelo meu nome, e os que criei para minha glória, e que formei, e fiz." (Is. 43:6-67)
"Porque, como o cinto se apega aos lombos do homem, assim eu fiz apegar-se a mim toda a casa de Israel e toda a casa de Judá, diz o SENHOR, para me serem por povo, e nome, e louvor, e glória; mas não deram ouvidos." (Jr. 13:11)
"Nossos pais, no Egito, não atentaram às tuas maravilhas; não se lembraram da multidão das tuas misericórdias e foram rebeldes junto ao mar, o mar Vermelho. Mas ele os salvou por amor do seu nome, para lhes fazer notório o seu poder." (Sl. 106:7-8)
"Por amor do meu nome, retardarei a minha ira e por causa da minha honra me conterei para contigo, para que te não venha a exterminar. [...] Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha glória, não a dou a outrem." (Is. 48:9,11)
Durante toda a trajetória do povo de Israel, Deus esteve movido tão somente pelo amor à Sua glória! Não foi pelo o que o povo fez ou por quem eram. Desde a criação, Deus os havia criado para a Sua glória. Veja como o texto de Ezequiel deixa a questão claríssima:
"Dize, portanto, à casa de Israel: Assim diz o SENHOR Deus: Não é por amor de vós que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome, que profanastes entre as nações para onde fostes. [...] Não é por amor de vós, fique bem entendido, que eu faço isto, diz o SENHOR Deus. Envergonhai-vos e confundi-vos por causa dos vossos caminhos, ó casa de Israel."  (Ez. 36:22, 32)
Não resta dúvida, portanto: a motivação de Deus (Sua determinação última) não pode ser outra se não a Sua própria glória. O fim principal de Deus é glorificar a Si e gozar a Si mesmo para sempre! O problema do homem consiste em sempre acharmos que somos o centro do universo. Muito embora seja derramado sobre nós o amor de Deus, não quer dizer que ele é exclusivo nosso.


Estamos explorando aspectos da glória divina, Seu propósito, autoridade, porém, mais uma vez, isso tudo ainda parece apontar para um Deus egocêntrico, que busca apenas a Si mesmo, como num eterno narcisismo. A verdade é que não gostamos de pessoas assim; gente que vive querendo a glória para si. E isso ocorre por alguns motivos.

Primeiro é que não gostamos porque elas fazem isso em excesso, ficam constantemente "relembrando" a sua glória e a necessidade da exaltação. Segundo, isso demonstra fraqueza e insegurança da parte delas: elas vivem da glória que os outros as dão, como se sua própria existência estivesse vinculada à glória que elas conseguem arrancar das pessoas. Terceiro, não raro, essas pessoas querem a glória para si à custa de outras pessoas, sem se importar com elas.

Temos razão em não gostar de gente assim. Mas nosso Deus não é como elas, Ele não é fraco ou inseguro. E o texto bíblico mostra que Ele não busca o próprio interesse, veja: "O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal;" (I Co. 13:4-5). Então por que, afinal de contas, ele vive querendo a glória toda para Si?!

Vendo este texto e contrastando com o que lemos sobre o que move Deus, parece haver uma contradição: ao mesmo tempo que Deus diz que faz todas aquelas coisas por amor de Seu nome, afirma também que não procura seus próprios interesses, visto que não somente age movido pelo amor, também é amor. 

A diferença -- e aqui chegamos no cerne da resposta à pergunta proposta -- é que o empenho de Deus em buscar a Sua própria glória é um ato de amor! Se Ele deixasse de fazer isso, nós é que perderíamos! Pense bem: qual seria a melhor coisa que Deus poderia nos dar para demonstrar o Seu amor? Ora, muito fácil: Ele mesmo!! Não somente fez isso por meio de Jesus, Ele também sabe que o melhor caminho é uma vida de intimidade com Ele. Por isso faz tanta questão que o glorifiquemos!

Vejam bem: o que fazemos quando nos deparamos com algo bom? Nós enchemos de honra! Vou dar exemplos práticos: vamos num restaurante e elogiamos a comida boa ("Nossa, que churrasco bom aquele, né?"); vemos um bebê e logo ficamos encantados ("Como é bonita a filha da fulana, não é mesmo? A cara da mãe."); até mesmo nas coisas mais simples, como um time de futebol ("Rapaz, que jogada bonita, aí sim, viu?").

Meus caros, o louvor no sentido de adoração do que nos agrada não é um ato acessório: é o clímax da alegria! O prazer espontâneo transborda em louvor, em gratidão, em adoração! A alegria é incompleta até que possamos expressá-la, seja como for que façamos isso!

Por isso, Deus é o total oposto do egoísmo! Se Ele é verdadeiro e quer nos dar o melhor para nossa alegria, então, Seu objetivo não poderia ser outro se não o de nos fazer adorá-Lo! Não porque Ele precisa, jamais! Mas porque Ele nos ama e quer nos dar plenitude de alegria! A auto exaltação de Deus é a maior fonte de todas as virtudes, é o caminho para a fonte de alegria eterna!


Mais uma vez, e para finalizar essa série de estudos, lembramos que o pecado é o depreciador supremo da glória de Deus. Todo pecado é uma preferência aos prazeres passageiros aos eternos que Deus tem preparado para nós. E todos estamos sujeitos a isso: "pois todos pecaram e carecem da glória de Deus." (Rm. 3:23).

O primeiro passo para entender a glória de Deus é que a glória, per si, não é para nós. Entendam: mesmo que nós tivéssemos como conseguir a glória para nós, isso não seria o melhor! É a troca do eterno pelo passageiro. 

Por isso (e lembramos do último post aqui) a glória de Deus é humilhante. Ela demonstra claramente o quão não merecedores nós somos do amor e da própria glória de Deus, mas, mesmo assim, Ele escolhe nos amar e nos dar a fonte de alegria eterna: "Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte," (I Pe. 5:6).

Enquanto muitos contestam esse Deus que quer a glória toda para Si, outros compreendem que essa busca pela Sua glória é o melhor para nós. Nós podemos defender a razão da esperança que há em nós. Usem a Apologética não para seu engrandecimento intelectual, mas para a glória do nosso Deus, utilizando-se dessa ferramenta para proclamar as verdades d'Aquele que nos tirou das trevas para Sua maravilhosa luz.

A este Deus, nosso Pai, que por Seu filho, expressão máxima de Sua glória nesta terra, nos livrou das amarras eternas do pecado; que por meio do Espírito Santo está continuamente agindo em nós, dando-nos oportunidade de honrá-Lo aqui nesta terra; a este Deus toda a glória pelo séculos dos séculos, amém!

Seja Ele vosso guia e vossa luz.
Para sempre, 
Soli Deo Gloria.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Apologética - A glória de Deus: vaidade? (I)

Pois é, meus caros, pois é. Este é o último assunto que estaremos tratando no quesito Apologética, pelo menos por enquanto. Nesta série de estudos, vimos um pouco do que é a Apologética em si, sua função e utilidade; falamos sobre o Relativismo, seus perigos e contradições; questionamos se a Bíblia é mesmo a palavra de Deus, se Deus existe, se havia oposição entre fé e ciência; falamos sobre o debate criacionista x evolucionista; vimos o que a Bíblia fala sobre anjos e demônios; falamos um pouco sobre Deus permitir que tragédias aconteçam e ainda sobre Sua justiça. Foi uma longa jornada, devo admitir. 

No post de hoje, trataremos de um assunto que nem sempre ouvimos por aí, mas muitos pensam: por que Deus quer a glória toda para si? Isto é reflexo de uma personalidade narcisista? Esse Deus que nós adoramos precisa dessa adoração para ser Deus? Afinal, para quê a glória a Deus?

A Declaração de Cambridge é documento importante para nós reformados, nela estão contidos os 5 solas da Reforma Protestante. Um deles nós costumamos falar muito e, inclusive, é como eu assino todos os meus posts no final: S.D.G., Soli Deo Gloria. Leiam-no na íntegra:
Tese 5: Soli Deo Gloria

Reafirmamos que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente.

Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos ou a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a auto-estima e a auto-realização se tornem opções alternativas ao evangelho.
Em que pese, a glória de Deus é parte central da nossa teologia. Tanto o Breve quanto o Catecismo Maior de Westminster (também dois pilares na instrução da nossa doutrina), a primeira pergunta postula: "Qual é o fim principal do homem?", ao que responde: "O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre", embutindo aí os dois lados da moeda: glorificar (atividade) para desfrutar (prazer) dessa mesma glória (em momento oportuno podemos estudar as perguntas do catecismo). 

A glória de Deus também sempre foi destacada como cerne da Bíblia: do Éden ao Apocalipse vemos manifestações disso em diversos textos e momentos, sejam nos Dez Mandamentos, sejam nos ensinos de Jesus, dos profetas, dos apóstolos. Os exemplos são muitos e muitos. Abra qualquer página da Bíblia e você vai ver um versículo que aponte para a glória de Deus. Optei por esse aqui:
"Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Respondeu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus." (Jo. 9:1-3)
Esse texto é bom pra essa discussão que estamos tendo. Nos tempos bíblicos, as deficiências eram entendidas como maldição em muitos povos, porém, neste caso, Jesus disse que não se tratava de um pecado ou uma maldição sobre a vida do homem, mas que aquilo houvera acontecido para manifestar a glória de Deus.

Vendo isso a gente pode pensar: "Poxa! Mas o cego ficou cego a vida inteira só pra isso? Que maldade! Deus privou o homem da visão só para que se manifestassem nele suas obras!". Pode parecer que Deus quer a glória d'Ele à custa do sofrimento alheio, dando a impressão de um Deus arrogante e mesquinho. Mas será que é isso mesmo?
"No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória." (Is. 6:1-3)
Na visão do profeta Isaías, ele vê o Senhor Deus assentado num trono. Pergunto: quem é que senta no trono? Ninguém menos que o Rei, é claro. Vocês já viram a Rainha da Inglaterra (aquela que vive quase pra sempre)? Existe todo um protocolo apenas para se aproximar da rainha, ninguém pode se aproximar de qualquer jeito e existem circunstâncias específicas sob as quais se pode tocá-la! Ela tem uma autoridade muito grande, mesmo que seu poder hoje seja limitado.

Ora, se nós prestamos tamanha reverência a uma autoridade constituída por homens, então a primeira conclusão que tiramos é que Deus merece toda a glória porque Ele reina sobre tudo e sobre todos. Não bastasse esse texto de Isaías, olha como a Bíblia ratifica a autoridade de Deus:
"Deus reina sobre as nações; Deus se assenta no seu santo trono." (Sl. 47:8)
"Respondeu Jesus: Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, quem me entregou a ti maior pecado tem." (Jo. 19:11)
"Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas." (Rm. 13:1)
Nós podemos até mesmo lembrar dos posts sobre anjos e demônios, lembrando que até estes seres estão sob o domínio de Deus e, no caso dos anjos, eles próprios existem para continuamente adorá-lo e glorificá-lo.

Um outro aspecto da glória de Deus é que, para nós, ela é humilhante: "Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!" (Is. 6:5).

Isaías se apavora, porque ele contemplou a glória de Deus de tão perto que foi como olhar num espelho: se estamos distantes não conseguimos enxergar direito, vemos nossa silhueta e alguns aspectos gerais; mas conforme nos aproximamos o reflexo fica mais nítido e, juntamente com ele, nossas imperfeições, nossas impurezas ficam mais aparentes.

Quanto mais próximos estamos da glória de Deus, mais o nosso pecado, nossas fraquezas, nossos defeitos ficam aparentes. Por isso, o resultado de uma aproximação com a glória de Deus é o reconhecimento da nossa natureza má, é vergonha, humilhação porque sabemos que não somos dignos de contemplar a glória do Senhor tão impuros como somos e estamos.

Quando Jesus realizava seus milagres, ele apontava para a glória do Deus Pai. Foi numa realização destes milagres que Pedro reconheceu a glória do Senhor através de Jesus: "Vendo isto, Simão Pedro prostrou-se aos pés de Jesus, dizendo: Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador." (Lc. 5:8). Este deve ser o pensamento, a atitude do pecador diante do esplendor puro da glória de Deus.

Lembram do espinho na carne de Paulo (II Co. 12:7-8)? O que Deus responde quando ele pede para que seja removido o espinho? "Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo." (II Co. 12:9).

Porque a glória do Senhor, ao nos humilhar, nos envolve com a misericórdia e a graça divina que recebemos ao nos arrepender dos nossos pecados, ao reconhecer nossa situação de pequenez diante d'Aquele que é.


Este primeiro post é para lembrarmos quem é este Deus cuja glória alguns querem questionar. Ele é o Todo-Poderoso, o Soberano do tempo e do espaço. Simplesmente por isso, Ele já é merecedor de toda a glória! Mas, como se não bastasse, ainda escolhe derramar seu amor, graça e misericórdia sobre os que escolheu; não porque o merecem! Mas para que glórias sejam dadas ao Seu nome.

No próximo post, vamos desenvolver um pouco mais profundamente este tema. E já deixo aqui um teaser: respondemos aqui que o fim principal do homem (na verdade o pessoal de Westminster nos ajudou com isso) é glorificar a Deus e honrá-lo para sempre. Mas... qual é o fim principal de Deus? Ele tem um propósito? Quais as motivações de Seu coração? Existe algo que o move? Ele tem algum objetivo com seus planos? Afinal... qual é o fim principal de Deus?

Essas e outras perguntas tentaremos responder.
Até lá, seja Ele vosso guia e vossa luz.

S.D.G.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Apologética - Deus e as injustiças

Olá pessoal! No post de hoje vamos continuar estudando algumas questões que sempre nos são colocadas e muitas vezes não sabemos como responder. A de hoje pode ser expressa de uma forma que já ouvimos várias vezes: Se Deus é justo, por que há tanta injustiça no mundo? 

Vamos tentar responder essa pergunta demonstrando de onde vem de fato a injustiça no mundo, como Deus revela a Sua justiça e o que devemos esperar disso.

"Sentença revelada ao profeta Habacuque.

Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? Por que me mostras a iniqüidade e me fazes ver a opressão? Pois a destruição e a violência estão diante de mim; há contendas, e o litígio se suscita. Por esta causa, a lei se afrouxa, e a justiça nunca se manifesta, porque o perverso cerca o justo, a justiça é torcida.

Vede entre as nações, olhai, maravilhai-vos e desvanecei, porque realizo, em vossos dias, obra tal, que vós não crereis, quando vos for contada. Pois eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa, que marcham pela largura da terra, para apoderar-se de moradas que não são suas.
" (Hc. 1:1-6)
Acabamos de ler o começo do livro do profeta Habacuque. Este homem vê o povo de Israel afundando no pecado, ele vê a injustiça (a iniquidade) e questiona a Deus, clama a Ele para que a justiça seja feita. 

Deus não censura o profeta, pelo contrário, Ele quer que nos revoltemos com as injustiças também, Ele quer que estejamos ávidos por vê-la ser cumprida: "Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos." (Mt. 5:6).

O problema da injustiça no mundo tem uma origem simples e clara: o pecado. Depois que ele entrou no mundo, este passou necessariamente a ser permeado por injustiças. A natureza pecaminosa do homem faz com que a injustiça seja o curso normal das coisas caso não haja uma intervençao para aprumar o rumo. 

Discussões quanto à natureza má do homem não são necessárias agora e entram em outro assunto. Mas cabe apenas lembrar que não precisamos ensinar a criança a fazer o mal, isso ela já sabe; porém, temos que continuamente corrigi-la, para que entenda o que é o certo a se fazer.

Na atualidade, a "Justiça" é um ideal. Quando os juristas almejam por ela, sabem que ela é o alvo a ser alcançado, um ideal que nesta terra não será possível concretizar com toda plenitude (embora isto não seja motivo para que findem seu trabalho). 

A injustiça, por sua vez, é manifesta em todos os lugares e de diversas formas; para usar minha graduação pra alguma coisa, podemos exemplificar mostrando os problemas das desigualdades sociais entre países ricos e pobres, opressão econômico-militar-cultural que estes últimos sofrem e mesmo desigualdades dentro dos próprios países ricos. Esse vídeo demonstra isso bem. 

Logo, vemos que a injustiça é algo que está continuamente presente e permeando a nossa realidade como um todo. Mas a pergunta que fica é: Deus se importa? O justo Todo-Poderoso liga para o que acontece aqui? E Ele pode fazer ou faz alguma coisa? É de suma importância que leia-se o post até o final, pra não ficar tirando conclusões precipitadas.

Em primeiro lugar, devemos lembrar que Deus vê todas as injustiças, as que acontecem no mundo inteiro: "Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração;" (Gn. 6:5); e até mesmo as que não vemos: "Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações." (Jr. 17:10).

Em segundo lugar, Deus não é um ser de coração duro que enxerga isso como muitos enxergam as tragédias do mundo, Ele não é indiferente: "Quando o SENHOR lhes suscitava juízes, o SENHOR era com o juiz e os livrava da mão dos seus inimigos, todos os dias daquele juiz; porquanto o SENHOR se compadecia deles ante os seus gemidos, por causa dos que os apertavam e oprimiam." (Jz. 2:18).

Lendo isso, alguém poderia pensar que Deus tinha uma falsa compaixão, que via tudo e "não faz nada". O problema é que o pecado quer desafiar a justiça de Deus, ele não quer aceitá-la! Pense no Éden. Satanás queria quer Eva questionasse a noção de justiça divina: "Como assim Deus não quer que vocês não comam do fruto proibido?! Isso é injusto!"

Satanás tentou fazer a mesma coisa com Jó, tentando argumentar que Jó só era fiel porque Deus estava "comprando" a devoção dele com bênçãos, como se não fosse justo honrar o servo que tem tudo. Porém, na história, vemos que os verdadeiros servos de Deus permanecem fiéis mesmo em meio às dificuldades (isso até remete ao último post).

A verdade, meus caros, é que Deus vê as injustiças e as julga. Mas... como? A resposta é bem simples: Ele faz isso por meio da Sua ira.


Quando se fala disso (e aqui pode até parecer que isso não tem nada a ver com o tema justiça/injustiça, mas tem sim), muita gente pensa logo em cenas como a imagem acima: cataclismos, destruição em massa, apocalipse, etc. Mas antes de pensar em tudo isso, devemos lembrar que a ira divina é a expressão do Seu justo juízo contra o pecado e o pecador. Ela é pura, sem mácula. É a Sua Justiça (a verdadeira, inatingível) reagindo contra a injustiça. 

Deus tem necessidade de manifestar a Sua ira. Entenda-se: Deus não pode deixar de punir o pecado, senão Ele iria contra sua própria natureza, não seria lógico: "Tu és tão puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar;" (Hc. 1:13a). A própria natureza de Deus demonstra que o convívio com a impureza é algo impossível para Ele, tal a sua perfeição.

Veja bem, Deus nunca vai deixar de ser amoroso e paciente (também características d'Ele), mas Ele não é obrigado a oferecer isso a todos, porque, afinal de contas, quem é merecedor de Seu puro amor? Aquele que não tem pecado! Justamente porque Ele não pode ter comunhão com o pecado. Ele não é obrigado a se comportar segundo o nosso modelo do que é amor ou paciência, Ele é amor. Por outro lado, se Deus deixasse de demonstrar sua justiça (por meio da ira), Ele estaria sendo injusto consigo mesmo, visto que não pode ter convívio com a injustiça! E isso não é possível! (Releia o parágrafo se necessário).

Logo, para Deus, é impossível que Ele não revele Sua ira: "Abomináveis para o SENHOR são os perversos de coração, mas os que andam em integridade são o seu prazer." (Pv. 11:20). Ele abomina o pecado e tudo que é consequência dele.

Essa ira de Deus, a Bíblia ensina, é terrível: "Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?" (Ap. 6:15-17). 

Além disso, a ira de Deus, sendo a expressão mais pura da Justiça, é imparcial. Ele é de fato, justa, assim como o justo Juiz que a exerce: "Agora, vem o fim sobre ti; enviarei sobre ti a minha ira, e te julgarei segundo os teus caminhos, e farei cair sobre ti todas as tuas abominações." (Ez. 7:3). Só Ele é capaz de exercer um julgamento desse tipo.

Outro aspecto da ira divina é a sua manifestação. Muitos acham que a ira é, como falei, uma expressão última do que é a Justiça divina, como no Apocalipse (texto que inclusive já lemos). Neste sentido, é importante lembrar que a ira de Deus é gloriosa também no sentido que redunda em glórias a Ele porque exalta a Sua própria justiça! Ela é terrível aos ímpios, mas aos justos e à Sua própria pessoa, ela é o fartar dos que têm "fome e sede de justiça" (lembrando do texto de Mateus).

Ainda sobre a manifestação, muitos podem estar se perguntando: "Ok, se Deus é justo e puro, não podendo conviver com a injustiça, porque Ele não executa Sua ira? Porque Ele permite que o mal se alastre na terra e a injustiça seja a norma? Afinal, porque Ele não faz nada?"Preciso de dois argumentos para responder esses questionamentos. 

O primeiro é afirmar, pela Bíblia, que Deus manifesta sim a sua ira a seu tempo. Isso se dá de forma parcial/contínua: "Deus é justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias." (Sl. 7:11), ou seja, Deus não está alheio ao mundo e opera nele continuamente, exercendo sua ira e justiça quando necessário no tempo presente, no agora, nesta terra em que vivemos.

E também se dará de forma final/última: "Está perto o grande Dia do SENHOR; está perto e muito se apressa. Atenção! O Dia do SENHOR é amargo, e nele clama até o homem poderoso. Aquele dia é dia de indignação, dia de angústia e dia de alvoroço e desolação, dia de escuridade e negrume, dia de nuvens e densas trevas," (Sf. 1:14-15)


Lembram que falei que precisava de dois argumentos? Como o segundo já é à guisa de conclusão, vamos revisar o que já vimos até aqui: que a injustiça presente no mundo é consequência do pecado do próprio homem; que Deus não está alheio a ela; e que Ele se manifesta em reação a este mal por meio da Sua ira.

Quanto à pergunta de "por que Deus não executa logo e extirpa a injustiça da terra?" O primeiro argumento é que Deus manifesta sua justiça nessa terra sim, mas Ele o faz a Seu tempo e da forma que bem entende. 

O segundo argumento é absolutamente lógico. Pense numa lei, lei humana mesmo, pega algum artigo aí do Código Penal que tipifica o crime de homicídio por exemplo (o mais simples que tiver). Ok. Se alguém infringir essa lei, essa pessoal cometeu uma injustiça, a Justiça foi ferida e clama-se para que um correção seja dada. Isso ocorre porque é justo que seja punido aquele que comete um crime. É justo que aquele que fez o que é mau receba uma pena para pagar pelos seus erros. 

Então por favor entendam: Deus não executa Sua Justiça de forma sumária nessa terra simplesmente por amor a nós. Ora, se a consequência do pecado é a morte no sentido de separação total de Deus, então Deus pode muito bem olhar pra terra e dizer: "Vou acabar com toda a injustiça do mundo", então com um simples movimento da mão Ele extingue toda a raça humana da terra, "pois todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Rm 3:23).Logo, se todos pecaram, todos incorrem no crime cuja punição é a total separação de Deus, ou seja, a carência total da Sua glória.

Mas surge aqui outra dúvida: então como é que Deus consegue se relacionar conosco se Sua própria natureza não permite a comunhão com o pecado? Excelente pergunta, eu diria. A resposta: porque a injustiça que era nossa, foi imputada em outra pessoa. Não adianta de nada eu tirar o crime de um homicida e jogá-lo sobre outro homicida, não há justiça nisso. 

Para nos justificar, Deus, movido unicamente pelo Seu amor, tomou todas as nossas transgressões para Si, por meio de Seu filho Jesus, alguém puro, sem mácula, sem pecado, que morreu numa cruz pelos meus e os seus pecados, os quais foram n'Ele imputados, para que nós pudéssemos desfrutar da glória de Deus, para que nós pudéssemos, enfim, ter comunhão com Ele. 

A Justiça final não é um ideal que os ímpios verdadeiramente procuram, porque a expressão máxima da Justiça significa sua morte, sua aniquilação, sua total separação de Deus, visto que isso... é nada mais nada menos... que justo.


Haverá um dia que Deus corrigirá toda injustiça. O profeta Habacuque, que questiona Deus quanto às injustiças no mundo reconhece isso também: "Eis o soberbo! Sua alma não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé." (Hc. 2:4)

Ele tem vive por uma fé que sabe que Deus vai suprir suas necessidades: "buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas." (Mt 6:33); fé que a Igreja de Jesus vencerá no fim dos tempos, quando de Seu retorno: "Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela." (Mt. 16:18).

Muitas vezes queremos fazer justiça com nossas próprias mãos. Carregados pelos nossos sentimentos traiçoeiros, muitas vezes esquecemos que a vingança pertence ao Senhor: "não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor." (Rm. 12:19). Ela pertence a Ele porque só Ele é capaz de executá-la de forma absolutamente justa. 

E Ele vai executá-la. Deus odeia a injustiça e vai retribuí-la a Seu tempo: "Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte," (I Pe. 5:6). Isso nos relembra a importância de vivermos aqui na terra uma vida pautada pela fé. Não uma fé cega, mas uma fé que sabe no que acredita, que é capaz de defender suas ideias e ideais. Movida por uma paciência e esperança que permitem suportar o tempo presente. 

O justo viverá pela fé inabalável que tem a garantia da verdadeira Justiça, aquela que vem do Senhor. 

Habacuque, o profeta indignado com a injustiça, crê nisso. Reconhece que pode e deve aguardar a verdadeira Justiça com fé, que mesmo em tempos de injustiça ele sabe que deve viver uma vida que testemunhe do Deus de toda justiça; que pela fé, mesmo em meio aos males desse mundo ele pode dizer: "todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação." (Hc. 3:18)

É hora de se regozijar no Deus da salvação. É hora de deixar Ele abrir seus olhos para que possa enxergar a verdadeira Justiça. Arrependa-se da sua injustiça, do mal que habita em você, clame ao Senhor por Sua graça e misericórdia, para que, pela fé, tenha esperança tanto no futuro, quanto no presente.

Seja Ele o vosso Deus, 
Seja o justo Juiz vosso guia e vossa luz.

S.D.G.